arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Mario Ballesteros

Contrastes Sul-americanos | Perspectivas Críticas

Crítico, Editor Verb-Actar, Quaderns, Curador Design Hub Barcelona, Responsável Plataformas Digitais e Comunicação BIArch

arqa: Tendo em conta a sua investigação da arquitectura latino-americana e a sua actividade editorial, e no âmbito do fenómeno de urbanização global, qual a especificidade do contexto territorial, urbano e arquitectónico da América Latina?
Mario Ballesteros: A condição latino-americana é um conceito demasiado amplo e politicamente correcto para ter qualquer tipo de ressonância profunda no que diz respeito a identidade pessoal. Ainda assim, há algumas afinidades entre os latino-americanos: todos fomos criados com doses semelhantes de cultura consumista junk-pop, de classicismo exuberante, de um autoritarismo paternalista, de corrupção generalizada, de confusão do cruzamento mestiço e do barroco tropical, de melodrama, de acentuados complexos de inferioridade e, acima de tudo, de uma sede enorme de modernidade. Apesar de toda a "profunda" retórica anti-globalização que tem sido usada e abusada na região, ainda queremos ser, a qualquer custo, modernos mais do que qualquer outra coisa. Neste sentido, a nossa cultura urbana é fundamentalmente aspirante e acredito que este traço psicológico retorcido é um elemento chave de definição das nossas realidades e sensibilidades espaciais. É algo mais profundo do que a informalidade, o desenvolvimento distorcido, ou qualquer outro termo teórico chamativo que costuma ser usado para descrever as nossas realidades urbanas. Para além disso, depois de estar auto-exilado na Europa nos últimos anos, apercebi-me que estamos muito mais preparados para interpretar, navegar e subsistir num contexto económico de crise urbana. O urbanismo latino-americano é directo, cru, completamente auto-revelador. Há quem considere estes factores como sinal de subdesenvolvimento ou imaturidade económica, mas como provou a avassaladora crise social e económica na Europa e nos EUA, estes aspectos indiferenciados da realidade urbana (desigualdade, violência, exploração, degradação social e ambiental, etc) são, na realidade, as formas basilares de operar na nossa economia global. As cidades europeias são tão maquilhadas e protegidas, forçosamente e superficialmente agradáveis, que é muito difícil para os europeus perceberem o que será viver nas cidades enquanto têm de suportar períodos continuados de crise económica. A não ser, claro, que se seja da América Latina porque já a terão vivido. Tentámos, vezes sem conta, ser modernos e falhámos. Tentámos, vezes sem conta, acreditar em adaptar modelos de vida urbana universais, limpos e eficientes e falhámos. Assim, a visão latino-americana da construção de cidades como um esforço confuso, disfuncional, conflituoso e motivado pelo poder torna-se agora, de repente, mais certeiro e efectivo, revelando mais do modo como as cidades funcionam e como são construídos em qualquer lado do que as retórica cor-de-rosa das "cidades habitáveis" ou "cidades criativas", tão em voga nos anos do crescimento expansivo.

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Jul 2011

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