arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Álvaro Domingues

Reabilitações Urbanas | Perspectivas Críticas

Geógrafo, Docente FAUP, Investigador do CEAU-FAUP, Autor "A Rua da Estrada", "Cidade e Democracia", "Políticas Urbanas"

arqa: Tendo em conta a sua abordagem geográfica e territorial, em que sentido lhe interessa especificamente o tema da reabilitação urbana?
Álvaro Domingues: Como se diz, vivemos num tempo de "obsolescência acelerada" que decorre da velocidade, da complexidade e da imprevisibilidade dos processos de mudança social. Mudam as tecnologias, mudam os processos de produção, distribuição e consumo, mudam os estilos de vida, etc. A forma urbana é muito mais do que o contentor destas mudanças; é um seu produto e agente de transformação. Dito isto, aprofunda-se a tensão entre os que pensam que "cidade" ou "urbano" é um conceito caracterizado pela sua estabilidade e universalidade, e os que pensam que a urbanização (por defeito, tudo o que não são os espaços da agricultura ou da floresta ou os espaços mais ou menos "naturais") não é mais do que o resultado ou o modo como a sociedade se territorializa. Muda a sociedade, mudarão esses padrões e processos de territorialização. Se a reabilitação for entendida como o re-uso ou a re-urbanização de algo já muito edificado e apresentando um grau mais ou menos irreversível de disfuncionalidade, abandono e obsolescência, essa reabilitação é um processo permanente que tanto diz respeito ao alargamento de uma auto-estrada, à infraestruturação de uma estrada, à instalação de uma rede de gás, à modernização de uma escola, à intervenção num bloco habitacional degradado, à reconstrução de um prédio ou de um conjunto edificado. No entanto, entre representação e realidade, o tema da reabilitação urbana tem aparecido recorrentemente em quatro contextos distintos: 1- a intervenção na cidade velha; 2- a intervenção em bairros sociais "em risco"; 3- a re-urbanização mais ou menos pontual de edifícios, infraestruturas e terrenos tornados obsoletos (fábricas, armazéns, aterros, infraestruturas em desuso, etc.); 4- os projectos urbanos excepcionais como a EXPO ou o programa POLIS, com componentes mais ou menos fortes de reabilitação de edificado e espaço público sobre solos mais ou menos "vagos" (de uso, sentido ou apropriação). A visibilidade e a importância destes temas são inegáveis tal como é imensa a retórica oca que sobre eles se vai construindo e que relega para a total amnésia as enormes extensões e metamorfoses da urbanização contemporânea. Confunde-se a árvore com a floresta e tapa-se a floresta com a árvore e com o exercício de dramatização e de mediatização sobre a cidade velha e as suas jóias e trastes. Num registo quase sempre simplista e dicotómico, chega-se até a inverter a razão e a importância das coisas, pensando-se que é a urbanização algures que impede que a dita cidade velha se regenere. A questão é bem mais simples: a cidade velha perdeu o monopólio da centralidade; converteu-se num fragmento minoritário da urbanização (em superfície, população e emprego) e presta-se sobretudo a jogos de estetização, nobilitação, turistas e quase parque temático. Esta é a parte que menos me interessa.

 (…)

Mai 2011

Outros artigos em Entrevista

Imagem - FLORIAN IDENBURG

FLORIAN IDENBURG

FLORIAN IDENBURG, ARQUITETO INTERNACIONAL COM MAIS DE DUAS DÉCADAS DEEXPERIÊNCIA, É UM DOS FUNDADORES DO ATELIER SO-IL, EM NOVA IORQUE. TEM UMPERCURSO PROFISSIONAL MUITO LIGADO A ESPAÇOS INSTITUCIONAIS, TENDO LIDERADOPROJETOS… 

Nov 2020

Imagem - XI BIAU - BIENAL IBERO-AMERICANA DE ARQUITETURA E URBANISMO

XI BIAU - BIENAL IBERO-AMERICANA DE ARQUITETURA E URBANISMO

arqa (1) O título da presente edição da ARQA é “(NON) urban”. Que comentário lhe sugere este título no contexto de uma transurbanidade que, aparentemente, já não distingue o que… 

Mar 2020

Arquivo de Entrevista