

O conceito curatorial
Falemos de [7] Casas em Cascais é um projecto curatorial assinado pela arquitecta Ana Tostões, enquadrado na Trienal de Arquitectura de Lisboa. A escolha percorre o séc.XX, 100 anos de história da arquitectura portuguesa, numa apurada selecção de 7 exemplos de arquitectura doméstica e privada sitas na linha de Cascais.
À partida, o tema desta exposição surpreende-nos um pouco. Numa altura em que um discurso social é "bem visto" no panorama público, face à crise económica actual, e que o apelo à sustentabilidade é recorrente, quer em termos de uso de recursos, quer na sua dimensão social de adequação dos espaços e funções, é-nos proposta uma mostra de uma arquitectura apenas acessível a uma elite burguesa endinheirada.
A zona de Cascais tornou-se um símbolo de ascensão social ao longo dos tempos. Já teve, no passado, uma época mais feliz, onde era zona de residência quotidiana ou refúgio de fim-de-semana de uma burguesia erudita. Mas a ambição de wannabe e o poder negocial de novos-ricos, muitas vezes "pouco informados", tem vindo a retirar-lhe o carácter de excepção, do ponto de vista qualitativo.
Mas esta exposição tem uma perspectiva histórica e, na verdade, é muitas vezes neste campo da arquitectura doméstica privada que são experimentadas ideias e até conceitos de vanguarda de expressões arquitectónicas/artísticas. Se no séc. XIX se desenvolveu a produção de variadas obras públicas, é marcadamente no séc. XX, com o Movimento Moderno, que o arquitecto realiza estes laboratórios experimentais na escala da vivenda. E é disto que trata a presente exposição.
Desejando uma audiência que ultrapassa um público especializado, esta edição da Trienal de Lisboa lançou o tema da Casa e do Habitar enquanto mote de aproximação ao cidadão comum. O tema aproxima a arquitectura ao cidadão pela sua relação com a vivência quotidiana, no que se refere aos seus anseios e ambições face ao Habitar, numa lógica existencial heideggeriana a que se referem Delfim Sardo, o curador geral da Trienal, e Ana Tostões: "habitar é o traço fundamental do ser, a condição de vida dos mortais" (Martin Heidegger).
Os projectos constantes desta mostra são: a Casa Monsalvat (1901-1902) de Raul Lino; o Casal de Monserrate (1931-1935) de Porfírio Pardal Monteiro; a Casa Vale Florido (1937-1938) de Luís Cristino da Silva; a Casa Sande e Castro (1956-1957) de Ruy Jervis d'Athouguia; a Casa Carmona e Costa (1962-1963) de Francisco Keil do Amaral; a Casa Valadas Fernandes (1968-1971) de Francisco Conceição Silva; terminando na obra mais actual, a Casa Correia-Vicente (1999-2003) de Pedro Mendes.
Habitar é uma ocupação do espaço complexa e vista como um acto cultural. Por isso, a Casa não é só um veículo de divulgação de vocabulários formais e artísticos, traduzindo influências de pensamento mais ou menos vanguardistas, internacionais, regionalistas ou tradicionalistas, mas também é um documento físico da evolução social da sua contemporaneidade. Nela estão caracterizados os costumes (pudor, privacidade, segregações, etc), os conceitos de vivência quotidiana (como o conforto e higiene), as condições sociais e os estatutos (como a evolução da condição da mulher e do papel feminino na sua relação com a casa e o modo de habitar) ou ainda os constrangimentos ou as potencialidades de novas técnicas construtivas e produtivas (por vezes verdadeiras revoluções como aconteceu com a introdução do betão armado).
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