

"A única possibilidade de algo é a sua experiência de impossibilidade" Fernando José Pereira
O compromisso da arte com a acção política, todos o sabem, não é recente, embora registe nas últimas décadas um desenvolvimento muito particular, quase marginal, associado sobretudo à reflexão sobre os limites e possibilidades desse desígnio ancestral. Fernando José Pereira (n. 1961) faz parte de uma geração de artistas revelada ao longo dos anos 90 e marcada por uma atitude crítica de cariz neo-conceptual que questiona as possibilidades de uma leitura politizada da produção artística.
O desejo de uma acção transformadora tem na arte de Fernando José Pereira um parceiro essencial que não alinha em ilusões mas procura uma consciente participação entre o ensimesmado mundo da arte e o seu exterior, funcionando como espécie de laboratório persistente onde confluem teoria, análise política e expressão artística.
Os mais recentes trabalhos de Fernando José Pereira eforçam esta estratégia de reflexão sobre as margens da utopia e a sua relação com a distopia, daí o leve apagamento da imagem na série "Im-possível (J. C.)", pegando no conceito de Jacques Derrida, a afirmação a negro da série de desenhos a grafite "Inexterior 2.0 [work in progress]", a subtil ligação destes com os vídeos "Into the Black (White foggy days)" e "Untitled (Speechless)", ou ainda com a fotografia de inspiração soixante-huitarde "Let's do it again". A visualidade resulta aqui de uma forte conceptualização de valores e a sua interpretação à escala das artes visuais. Com este fulgor e concentração, o trabalho deste artista tem vindo a ser apresentado no país e no estrangeiro em algumas das mostras mais importantes dos últimos anos.
Alguns dos conceitos fundamentais que atravessam os trabalhos agora revelados remetem para a noção de antagonismo e conflito social ou da possibilidade do impossível. Com a série "Im-possível (J. C.)", o artista mostra-nos o suave apagamento da palavra, ou conceito derridiano, "im-possível", não apenas como valor e significado concreto, mas também como imagem, interferência gráfica que procuramos, a todo o custo, continuar a ver. A visualidade da palavra, por um lado, e a contravisualidade conflitual a que o seu significado faz referência, por outro, reforçam a ideia da fragilidade artística no seu envolvimento com o destino político da humanidade. O paradoxo, o risco, e o antagonismo que aí se observam, são metáforas da própria ideia de arte política e ainda da política como exercício da democracia. Isto é, o artista procura reflectir aí, com essas imagens deliberadamente pobres em termos técnicos e materiais, sobre as "actuais possibilidades da arte como veículo de antagonismo".
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