

"Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo"
Herberto Hélder, in A Colher na Boca, 1961.
O Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado é o mais antigo museu de arte contemporânea do país, fundado por letra de lei republicana, em 1911. A poucos meses de comemorar cem anos de vida, este espaço museológico com peso histórico recebe até meados de Janeiro próximo a exposição "Falemos de casas: quando a arte fala arquitectura", integrada na Trienal de Arquitectura de Lisboa, comissariada por Delfim Sardo. Como casa da arte por excelência, a escolha deste espaço expositivo constitui uma feliz opção, conciliando o seu estatuto especial com a ideia de casa ou lugar onde habita a arte, ao promover uma exposição que deseja projectar essa "fala" transitória identificada nos domínios da arte e da arquitectura. De outro modo, a mostra cumpre ainda com distinção o seu propósito conceptual, procurando encontrar no exercício artístico vestígios e pressupostos de um envolvimento com a prática ou a reflexão da arquitectura, nomeadamente no que diz respeito ao sentido do habitar, como nos sugere o subtítulo da exposição "construir, desconstruir, habitar". As palavras de apresentação apontavam já, com efeito, um objectivo concreto: "Em vários momentos, num mundo sucessivamente destruído por conflitos globais, a arte reflectiu a necessidade de pensar o sentido da habitação, da construção afectiva do espaço, do casulo e das condições mínimas de sobrevivência. Por muitas formas a arte parece falar arquitectura, construindo campos quase sem nome, na intersecção da escultura, do filme, da arquitectura. A exposição pretende apresentar obras que se situam neste limbo, oriundas dessa necessidade de trabalhar a desconstrução do espaço e a apropriação de linguagens arquitectónicas por parte de artistas, mas tentando encontrar também movimentações correspondentes de proveniências diversas neste interface". O território difuso actualmente partilhado, ou "negociado" pela arte e a arquitectura - como defende Delfim Sardo no catálogo - obriga-nos a recordar que nem sempre foi assim. Desde que a arquitectura foi assumida como a disciplina maior das chamadas "Belas-Artes", a pintura, o desenho e a escultura estabeleceram com esta uma relação de submissão, ao serviço da importância social da grande arquitectura. Na verdade, o sentido de integração das artes plásticas neste exercício maior foi projectando uma imagem de dependência que manteve a pintura e as outras disciplinas num patamar de menoridade perante o investimento cultural, político e financeiro que envolvia a prática arquitectónica. Evoquemos, a este propósito, e apenas a título de exemplo, a pintura religiosa e a sua relação com a arquitectura, em especial, de catedrais, igrejas, baptistérios ou capelas. Em todos os momentos de domínio político e identitário da Igreja, as artes plásticas foram evoluindo em função das encomendas e das necessidades que esta apresentava, trabalhando para decorar ou dar sentido imagético às realizações edificadas que procuravam projectar na "Terra" o poder omnisciente de "Deus". Daí até à secularização protagonizada pelo mundo ocidental, entre o século XIX e a actualidade, as artes plásticas pouco ou nada alcançaram relativamente à sua autonomização da arquitectura, apesar das encomendas privadas, em particular da aristocracia e da alta burguesia, conduzirem progressivamente a pintura e a escultura a um plano de maior evidência.
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