arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: Sandra Vieira Jürgens

Carlos Bunga

A temporalidade do espaço

A prática artística de Carlos Bunga (n.1976, Porto) está fortemente associada à criação de instalações site-specific de grandes dimensões, realizadas com materiais como o cartão prensado, a fita adesiva e a tinta plástica, em que o artista desenvolve acções de construção, de demolição e de recomposição de estruturas orgânicas, entre os domínios da arquitectura, da escultura e da pintura. A intervenção recente feita para o Miami Art Museum, tal como a que realizou agora para a Bienal de São Paulo, são exemplos desse núcleo fundamental do seu trabalho.
Paralelamente a essas obras, Carlos Bunga tem produzido trabalhos em papel, de menores dimensões, onde aprofunda temas, conceitos e práticas de um processo criativo voltado para a reflexão sobre a dimensão espacial, eminentemente temporal, das construções humanas. Alguns desses trabalhos podem ser vistos na exposição "A temporalidade do espaço", no Espaço Avenida, em Lisboa, até 31 de Dezembro.

arqa: Na exposição de Lisboa apresenta duas peças que a meu ver caracterizam muito bem a sua prática artística. Em primeiro lugar, destacaria "Sometimes" (2006), um desenho que retrata a natureza eclética e heterogénea do trabalho. E de alguma maneira a sua obra está mais associada ao campo da instalação, ao acto de dispor e instalar diversos elementos nas coordenadas espácio-temporais, do que à disciplina do desenho, da arquitectura, da escultura, da pintura... Pensa ainda em termos de categorias convencionais?
Carlos Bunga: "Sometimes" é um desenho que pode, de facto, ir ao encontro da natureza eclética e heterogénea da globalidade do trabalho. Existe sempre essa tendência natural de pensar, de catalogar, de identificar ou racionalizar os objectos. Quando falamos de arquitectura, de escultura, de pintura, ou mesmo de fotografia, estamos a identificar cada uma das disciplinas existentes e, ao mesmo tempo, existe sempre um peso historicista, convencional ou tradicional, nessa catalogação e no modo como as percebemos e entendemos. Abordando as numerosas ramificações ou sub-disciplinas que as distinguem, podemos perceber que são muitas vezes arbitrárias e ambíguas. A instalação pode conter diferentes níveis de identificação e a complexidade das várias disciplinas, integrando ela uma maneira de trabalhar o espaço que parece poder incorporar qualquer meio para criar uma experiência, seja visceral, conceptual ou de outro tipo, num ambiente determinado. Muitas vezes, pode-se utilizar e intervir directamente no espaço onde a disposição de elementos tem a intenção de criar uma relação directa com o espectador. Penso que a minha maneira de pensar é cada vez mais heterogénea, possibilitando a coabitação de categorias convencionais que unem impulsos instintivos e racionais em diferentes níveis de acção. O próprio título da exposição "A temporalidade do espaço" faz referência às noções de tempo e espaço, a um sistema em movimento, onde não devem ser consideradas entidades independentes ou absolutas.

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Nov 2010

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