arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Césare Peeren

Arquitecto, co-fundador 2012 Architecten, co-autor "Superuse" e "Recyclicity"

arqa: Tendo em conta a sua investigação teórica e projectual em torno da reciclagem, em que sentido lhe interessa no seu trabalho a ideia de sustentabilidade? Como definiria sustentabilidade?
Césare Peeren: O estado do nosso mundo pode ser tipificado como um sistema desintegrado. Na actual "velha" sociedade a maioria dos processos está claramente separada. Dada a aparente abundância de recursos, esta fórmula funcionou "eficazmente" durante cerca de 100 anos. Mas, como sabemos, a realidade é que estamos a chegar ao fim desses recursos, devido à natureza ineficiente dos processos que desenvolvemos, desperdiça-se muita energia e recursos. Desde 1997, o 2012 Architecten tem procurado formas de reduzir este tipo de desperdício na Arquitectura. No nosso trabalho prático, temos experimentado principalmente com a reutilização de desperdício para a construção de edifícios. Nos nossos trabalhos de pequena escala, primeiro, fazemos um projecto abstracto, depois analisamos a área envolvente ao lugar de intervenção para apurar que desperdício está disponível; este processo fica documentado naquilo que chamamos o "mapa de colheita". Finalizamos o projecto com base nas características específicas do desperdício que encontrámos para  o construir. Destas experiências fomos retirando uma metodologia de projecto que agora utilizamos para desenvolver uma arquitectura e urbanismo cíclicos. Primeiro, cartografamos o material, social, económico, energético, etc., dentro e fora do sistema. O "sistema" pode ser um edifício, uma área, uma cidade ou uma região. Aí, torna-se claro quais são os elos que faltam e podem ser projectados de modo a que o sistema fique interligado. Num sistema integrado, não haverá desperdício, dado que o desperdício de um processo sustenta outro processo. A sustentabilidade é conseguida quando se atinge o maior número possível de processos interligados, quando a maioria das partes de um processo se encontra numa relação cíclica que é duradoura ou que pode ser partilhada. O propósito ou ambição da nossa pesquisa não é projectar um sistema completamente novo; a ênfase está em acrescentar novos elementos aos sistemas actuais que permitam criar atalhos aos fluxos existentes. Ao criar atalhos entre os fluxos, não só se reduz o desperdício, como também se cria novo valor económico para as redes de desperdício. Denominamos por "ciclificadores" as construções/funções que facilitam esses atalhos.

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Mar 2010

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