

1. Recentemente, Arjen Oosterman, no editorial da revista Volume, referia o renascer da tendência emancipatória na arquitectura com a emergência da temática da sustentabilidade: "O futuro está de volta! A arquitectura que tem estado ultimamente um pouco deprimida, está de novo alerta.
A sustentabilidade chegou para resgatar, definir metas, objectivos, tarefas e desafios. E o novo «paradigma» é rapidamente absorvido. Os arquitectos podem de novo salvar o mundo!"1. De facto, a consciência alarmante da degradação ambiental do planeta e escassez dos recursos naturais tornou determinante repensar o futuro, antecipando cenários previsíveis e contrapondo-lhe soluções possíveis. Num mundo globalizado, de orientação neo-liberal e tecnocrática, focado quase exclusivamente no presente, na necessidade imediata e na satisfação instantânea, essa projecção no tempo não pode deixar de parecer um acto paradoxal. Porém, se existe disciplina que pode ainda enfrentar e cumprir essa tarefa visionária é a arquitectura. Desde logo, a arquitectura tem um historial disciplinar que o atesta, desde as cidades ideais renascentistas até às utopias modernas do século XX. Não é de facto a primeira vez que a arquitectura revela despudoradamente a sua dimensão emancipatória. O projecto arquitectónico moderno, desde as utopias ingénuas do início do século XX até às distopias irónicas do início da década de setenta, não foi mais do que uma tentativa de lidar com o potencial dessa abertura histórica. Actualmente, com a ideia de sustentabilidade, assistimos ao reemergir explosivo desse adormecido programa emancipatório na arquitectura. Mas se antes utopia e distopia, especulação e crítica, realidade e ficção, eram campos entendidos como relativamente separados, hoje emergem numa amálgama dificilmente discernível. Das novas cidades tecnológicas carbono-zero até à apropriação livre do existente da cidade pós-capitalista, dos cenários desenhados de conciliação projectual entre artificial e natural até às práticas participativas da agricultura urbana, dos complexos arquitectónicos high-tech até às propostas interventivas low-tech, deixámos de conseguir traçar a linha que divide o pragmático e realista do especulativo e ficcional. Coisa perfeitamente natural tendo em conta a aceleração dos tempos e imprevisibilidade do futuro que reenviam toda a proposta arquitectónica transformadora para o buraco negro do devir. Por outro lado, essa opacidade estrutural por trás da vontade de configurar um futuro sustentável, por parte dos arquitectos, é contraposta à transparência comercial da assimilação do tema da sustentabilidade pela realidade do mercado. Se a temática da sustentabilidade não deixa de ter naturalmente um reflexo positivo na realidade produtiva, a sua incorporação pelo marketing tende a ofuscar as suas intenções políticas e sociais. Neutralizada a sua dimensão emancipatória nos balanços comerciais do momento, o mundo empresarial apropriou essencialmente a sustentabilidade como slogan eficaz. Ao ponto de lhe esvaziar quase totalmente o conteúdo ou contradizer subrepticiamente as premissas. Assim, quando falamos hoje de arquitectura sustentável entramos necessariamente em terrenos movediços. Ao fim e ao cabo, quando perguntamos se a arquitectura é sustentável, não deveríamos perguntar de modo mais amplo se a sociedade que a acolhe é sustentável? Longe das simplificações e moralismos que o tema despoleta, não serão as novas práticas arquitectónicas sustentáveis a forma afirmativa de confrontar a nossa in-sustentabilidade intrínseca?
(…)Mar 2010

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