arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Hannah Starkey

Meditações e experiências da vida contemporânea

A fotografia convive hoje, mais do que nunca, com uma cinemática sistémica que nos prende os sentidos e a disponibilidade. Diria mesmo que a imagem fotográfica, estática por natureza epistemológica, não apenas convive, lado a lado, com a torrencial proliferação das imagens em movimento, sobretudo marcadas hoje pelo potencial interactivo das imagens digitais, como procura ainda o seu lugar próprio, a preservação ou sobrevivência da sua essência, isto é, a manutenção de uma estética da imagem fixa que mantenha o ser humano capaz de parar para contemplar o que não se move.

Curiosamente, este instinto de sobrevivência parece similar, pelo menos em parte, ao que à pintura se apresentou em meados do século XIX quando a fotografia veio perturbar, pela reformulação da técnica de captação do real, o sistema de envolvimento sensorial e estético que o "quadro" pictórico havia desenvolvido, de modo convincente, durante centenas de anos. Porém, a fotografia não deixará de ter, ao longo da sua evolução, uma estreita relação com a própria tradição pictórica, por exemplo, ao nível da indicialidade, do registo, da mimesis ou dos modos de enquadramento da realidade observada, dando assim continuidade à ideia de "quadro". Mas se é verdade, tal como afirma Maria Teresa Cruz, "que a história do quadro, no entanto, não termina com o advento da fotografia, antes a inclui e tem aí um recomeço decisivo, é também verdade que esta mesma história do quadro transborda ainda a da fotografia, sendo possível continuá-la nos ecrãs, mais ou menos visíveis ou invisíveis e mais ou menos envolventes e imersivos"1. No início do novo milénio, se o "quadro" se prolonga no digital, ampliando as faculdades, o aparato e a complexidade das imagens em movimento, está simultaneamente, desse modo, a operar um acentuado efeito disruptivo ao nível da imagem fotográfica, porque é impossível não reconhecer que a fotografia se aproximou, talvez por reflexo de sobrevivência, do próprio formalismo pictórico, da sua escala e da sua relação com a realidade, talvez para que o inanimado possa ainda produzir outra sensação válida: a observação silenciosa que nos mantém ligados ao efeito contemplativo. Efeito, afinal, pouco condizente com a mobilidade frenética dos nossos dias.

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Mar 2010

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