arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Opinião

por: Baptista-Bastos

A eternidade do efémero

O nomadismo terminou há doze mil anos. Uma tribo descobriu, inesperadamente, numa ampla clareira, uma espécie de redutos, construídos em torno de árvores. Com espanto, curiosidade e cautela aproximaram-se, entraram nas casas, e verificaram não só o conforto com que estavam edificadas, como a comida que no interior havia. A história é difusa, mas não confusa. Ao que parece, as tribos de nómadas e de sedentários não guerrearam. Acontece um porém: o conceito de propriedade acabou: para os nómadas, a Terra e os produtos que ela oferecia pertenciam a todos. A filosofia de vida dos sedentários era oposta.
De qualquer modo, a perspectiva de sociedade torna-se outra. A casa, no sentido de abrigo, de refúgio, é efémera. Mesmo os sedentários não se fixam eternamente no mesmo local. O gregarismo talvez surja desse encontro dos homens com outros homens, dessa justaposição de culturas, de hábitos e de comportamentos. Mas mesmo o gregarismo não é uma categoria civilizacional muito estável.
A casa sempre foi o sítio onde o guerreiro repousa, entre a arma e o arado, entre as batalhas e o trabalho. Há documentos suficientes que provam não só esse facto como no-lo indicam ter sido, durante longos anos, séculos e séculos, um local, digamos, de passagem.
Um ditado português é esclarecedor: "Terra, tanta quanto a vejas; casa, quanto nela caibas." A posse de terras era (e, em muitos casos, ainda o é) o factor primordial de propriedade. Mas o ditado revela algo de pequenez de espírito, de tacanhez, e do carácter efémero do conceito de habitação. A efemeridade do conceito assenta em evidências. O grande escritor Carlos de Oliveira falou-me, várias vezes, das casas de adobe, na Gândara (território das suas experiências e preocupações literárias), que apenas serviam "para uma geração." Os seus romances e os seus poemas fornecem-nos indicações preciosas dessas vivências. Tudo é passageiro, precário e mortal.

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Jan 2010

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