arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Arq|a

Ana Vaz Milheiro

Perspectivas Nacionais - Arquitectos, Docentes, Críticos e Comissários

Arquitecta, Docente ISCTE, Directora-Adjunta JA

arq|a: A questão geracional na arquitectura portuguesa atravessou recentemente os debates disciplinares. Existem diferenças geracionais na arquitectura portuguesa contemporânea? Se sim, de que forma se manifestam essas rupturas geracionais? Se não, quais as constantes e identidades que fundamentam a continuidade dos valores?
Ana Vaz Milheiro: Primeiro, a lógica geracional é um conceito da modernidade, instalando-se com os discursos panfletários das vanguardas que emergiram durante as duas primeiras décadas do século XX. É uma condição histórica específica. Muito provavelmente irrepetível; decorrente de um tempo e de um lugar, quando a insistência na "ruptura" confirmava uma convicção progressista. Tratando-se de uma "atitude" mais do que uma prática, e apoiando-se na força de um discurso violento e agressivo (quantas vezes "literário"), as suas repercussões sentiram-se essencialmente no domínio de uma alteração de linguagem, não exactamente de "praxis". Mas mesmo na grande maioria das obras concretizadas por essa "geração nova" - principalmente nos seus mais extraordinários edifícios - a continuidade sobrepôs-se à ruptura e o carácter "conservador" da arquitectura prevaleceu. E sem dúvida que a arquitectura europeia dos anos de 1920/30 permanece ainda hoje como uma produção incrível, poucas vezes igualada. Segundo, em Portugal, essa fractura deu-se muito gradualmente, sem violência verbal e sem "chama". Não éramos, na época certa (porque existiu um "tempo certo histórico" que nos escapou), suficientemente "progressistas" para projectar uma cultura de ruptura. E, entre as cumplicidades geracionais predominavam, as afinidades políticas (não estéticas). Hoje, todavia, a ignorância sobre a história e a cultura arquitectónicas são um modo de estar. A fórmula da ignorância, no entanto, possibilita discursos "cismáticos" de teor mediático cuja receptividade manifesta genericamente a superficialidade de quem os credibiliza (não tanto de quem os pronuncia). A ruptura geracional da arquitectura portuguesa colocada assim revela um desacerto trágico com a história e só pode ser admissível como uma "curiosidade" para consumo interno, de fraca criatividade, um duvidoso gosto obituarista, que pode quanto muito fazer manchetes jornalísticas mas dificilmente avalizar debates disciplinares. Tem servido curadorias e números de revista, sem que os seus autores coloquem a fundo algumas questões, desde já, como caracterizar uma "arquitectura portuguesa" com a qual se possa romper. Artesanalidade das suas soluções tecnológicas? Desornamentação? Sentido de economia? Obsessão com a funcionalidade? Plasticidade formal? (argumentos que parecem saídos das páginas da Arquitectura Popular em Portugal - por favor, podemos arrumar na estante o "inquérito"?) Terceiro, os discursos que mantêm a existência dessa presumível ruptura geracional têm insistido em fulanizar mais do que em explicar, apoiando-se numa gestão de opostos. Encarregaram-se a si próprios da difícil tarefa de desmistificar os mestres (supostamente as figuras cimeiras da produção arquitectónica que se faz actualmente em Portugal, esquecendo o papel das grandes empresas que dominam os mercados imobiliário e empresarial). Esta espécie de visão a preto e branco sobre os problemas que se colocam à prática da arquitectura actual não passa de um capricho infantil. Mas também não vale a pena regressar novamente aqui aos argumentos (óbvios) que defendem a importância de Portugal projectar a sua arquitectura, não como uma cultura fechada, mas como uma prática historicamente consolidada; uma herança que funciona como um capital que, num país pobre, periférico e agora tristemente corrupto, talvez não interesse descartar. Quarto, a estratégia. Num tempo em que o sistema geracional prescreveu e os valores individuais emergem como se manifesta a nossa inteligência colectiva? Decretando a cultura da tábua rasa ou reclamando o nosso lugar no mundo? Se escolhermos a última hipótese, então é melhor ultrapassarmos esta crise de crescimento e regressarmos aos mestres - não como crianças mimadas mas como herdeiros - para que até os nossos mortos continuem vivos através de nós (não é o que diz o António Lobo Antunes?).

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Dez 2009

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