arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

O curso das coisas

Peter Fischli e David Weiss

O conceito de performance é hoje suficientemente amplo para abarcar experiências muito diferentes ou até paradoxais. Porém, o que as une ao sentido original da palavra é a associação à experiência directa da vida e ao sentimento de efemeridade temporal que inexoravelmente a caracteriza. Desde os anos 50, com os happenings dos norte-americanos Allan Kaprow e Jim Dine, que a combinação de diversos factores contribuiu para uma aproximação decisiva entre o exercício teatral – a encenação criativa do corpo, da linguagem e da própria vida – e a produção artística oriunda da tradição das belas artes.

O desejo de realizar arte sem objecto, sem materialidade assinalável, levou a uma espécie de revolução no modo como a ideia de obra de arte se expandiu e alargou até à própria vida. A ruptura então verificada no meio artístico internacional teve uma repercussão extraordinária em toda a segunda metade do século XX, marcando de modo indelével não só a ideia como a prática artística em diversas gerações de artistas. Na produção artística contemporânea, são inúmeros os criadores que trabalham, directa ou indirectamente, no âmbito da herança cultural performativa, ampliando assim o seu alcance e significado.

Apesar de não assumirem uma obra exclusivamente caracterizada pela ideia de performance, até porque a objectualidade, ainda que residual e fragmentada, permanece como referência essencial em todo o seu trabalho, Peter Fischli e David Weiss apresentam, sobretudo no início do seu percurso, nos anos 80, um conjunto de obras, nomeadamente filmes vídeo, em que a vida é encenada como experiência pretensamente cientifica, numa espécie de alucinação controlada dos quatros elementos alquímicos: a terra, o ar, o fogo e a água. Na verdade, quando observamos as particularidades do famoso vídeo da dupla suíça, sintomaticamente intitulado “The way things go”, ou em português “O curso das coisas”, realizado entre 1985 e 1987, percebemos de imediato estar perante um elaborado e meticuloso exercício sobre a energia que anima a vida natural, ainda que neste caso conduzido pela racionalidade prevista e absolutamente orientada para um resultado específico.

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Nov 2008

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