
As peças Cristal Viruses de Pieke Bergmans contorcem-se, para um lado e para o outro, parecendo línguas suplicantes, em direcção às superfícies onde são largadas, entornadas, encostadas.
Cada uma daquelas formas, jarras azuis, de múltiplas cores, jarras verdes, incolores, de branco baço, a jorrarem sobre as superfícies, é singular e única. Candeeiros há que vêm embater contra o topo das mesas.
Há sobretudo um candeeiro de Pieke, cujo bolbo de luz (lâmpada), cresce, sobressai do próprio candeeiro e se evade até à base mais próxima, neste caso de uma secretária formal, num ambiente convencional de escritório.
Num ambiente, aparentemente discreto, num lugar de gosto “calvinista” e austero, quase racionalista, o candeeiro desafia as convenções do bom design, sério, de Loos. Instala uma dimensão de cariz emocional, digamos, essencial para o design: o lúdico, o jogo, o riso.
O riso é a expressão da transgressão (os surrealistas valiam-se dela na arte do surrealismo). Na realidade o riso faz um “favor” à sociedade, para Bergson, uma vez que confere à sociedade alguma coisa de vivo.
“A fantasia cómica”, impregnada de vida real, como ele dizia, “podemos rir-nos de um chapéu, mas do que a gente se ri não é do bocado de feltro ou de palha, mas da forma que os homens lhe deram, do capricho humano que o modelou”. Pois segundo Bergson, nada
na natureza poderá ser cómico ou provocar o riso, quanto muito poderá “provocar sentimentos de beleza ou até graciosidade, poderá ser sublime, ou até mesmo o feio”. Mas só poderá surpreender-nos pelo risível se nessa paisagem da natureza encontrarmos intervenção dos homens ou até algum animal que se movimente, ou com comportamentos, à semelhança das atitudes do homem.
A seriedade dos objectos que acompanham o nosso dia-a-dia, a seriedade com que somos obrigados a comportar-nos no local de trabalho, ou muitas vezes em sociedade, bem como a seriedade que acompanhou o design durante décadas, um design industrialista, impiedoso e moralista nos seus princípios, necessitava de que o cómico irrompesse, precisava que o cómico se apoderasse dele e o abstraísse das coisas do coração. Porque para rir é preciso distância. E que esse riso encontre um eco, uma cumplicidade com outros que o possam também escutar, e participar nesse riso. Porque o riso, tal como os objectos, de que tanto se fala em design, opera no seu meio natural que é a sociedade, e é uma função útil porque “é uma função social”.
(…)Nov 2008

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