

Nos anos 70, Bernd e Hilla Becher assumiram a fotografia como um dispositivo muito particular de catalogação. O documento visual que a fotografia sempre significou, não só em termos ontológicos como epistemológicos, surgia então aos olhos do casal alemão como uma espécie de arquivo que considerava a arquitectura, nas suas formas e aparatos, como "escultura anónima". O formalismo dessas estruturas ligava-se aí à ideia de uma autonomia estética do objecto retratado, afirmando-o visualmente como uma nova imagem ou presença de escultura. Estruturas industriais ou edifícios de apoio funcional eram assim isolados do seu contexto humano, ganhando sobretudo uma extraordinária dimensão formal, acentuada pela inevitável sobriedade comparativa que daí resultava em termos estéticos e documentais.
As fotografias mais conhecidas de Thomas Struth (1954, Geldern, Alemanha), realizadas desde os finais de 70, marcam a produção artística contemporânea pela sua criteriosa serialização temática e formal, numa estratégia inspirada pela prática dos Becher, seus professores na Escola de Düsselforf, e ainda pela grande escala que a partir dos anos 90 as caracteriza. Porém, as vistas de ruas alemãs que surgem inicialmente da objectiva de Struth, apesar do seu hieratismo formal, escapam à colagem serializada que caracterizava o trabalho quase "científico" dos seus influentes professores. Ao contrário destes, nas imagens de Struth, a arquitectura surge como espaço urbano concreto, identificável, com rosto, basta lembrar fotografias como "Düsseldorfstrasse, Düsseldorf", de 1979, "Leipzigerstrasse, Essen", de 1989, ou "Bernauerstrasse, Berlin", de 1992, ainda que a presença dos seres humanos se apresente apenas por metonímia. Ou seja, é na presença dos automóveis estacionados, e na marca de habitabilidade dos edifícios, que sentimos, sem nunca a vermos directamente, a presença da figura humana, podendo a partir daí, desse vazio aparente e afinal apenas visual, delinear ou reconstituir a sua acção. Deste modo, entre a fantasmagoria desértica da cidade e a suspensão da sua actividade, pressentimos a proximidade humana, ou o seu calor vital, que contrasta com a frieza desses edifícios solitários
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