arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Projectos

Casa «boxes», Carnide, Lisboa

Luís Santiago Baptista + Tiago Leite Araújo

Arquitectura: Luís Santiago Baptista e Tiago Leite de Araújo
Cliente: Eng.ª Helena Antunes
Estrutura: Pressuposto, Eng. Pedro Gonçalves
Construtor: Tetrapod - Manuel Velhas, Arq. Miguel Pires, Arq. Ruben Martins (director de obra)
Data: 2002-2009
Fotografia: FG + SG - Fotografia de Arquitectura / ultimasreportagens.com


Primeiro, um contexto de intervenção privilegiado, com uma singular casa térrea existente no Largo de Carnide, em Lisboa, dividida em igual proporção entre área edificada e de logradouro e com duplo acesso. Depois, um cliente com um programa para uma habitação unifamiliar, algumas ideias e abertura ao diálogo. Por fim, um processo surreal com as instituições e intervenientes no processo urbanístico, arquitectónico e patrimonial. Na verdade, este projecto mais de que uma proposta idealizada é o resultado imprevisível deste processo de negociação amplamente ambíguo e complexo. Esta casa não seria assim, e estranhamente ainda bem que o é, se não fosse esse percurso acidentado, cheio de becos-sem-saída, volte-faces e saltos-em-frente.
Ponderou-se inicialmente uma abordagem mais próxima da recuperação do existente. A condição devoluta e degradada do imóvel e a organização funcional existente acabaram por exigir uma outra perspectiva mais interventiva. De facto, a divisão espacial pré-existente, com corredor longitudinal central, áreas públicas para o Largo, a norte, e áreas privadas e de serviço para o logradouro, a sul, impossibilitava a relação desejada da casa com o jardim e com a melhor exposição. A reformulação de todo o interior tornou-se inevitável, invertendo-se a prévia lógica organizativa dos espaços internos. Perante a impossibilidade de qualquer demolição da fachada interior para o logradouro - com excepção da abertura das janelas existentes para portas -, optou-se por estender e fragmentar as áreas públicas, com a intenção de criar uma relação mais aberta e luminosa entre áreas públicas e jardim. Subtraiu-se um pátio à construção existente e adicionou-se um pavilhão envidraçado no logradouro, com cobertura visitável e acesso pelo referido pátio. Não só se conseguiu uma boa iluminação natural e amplitude espacial interior na casa existente, como se potenciou uma relação aberta e transparente entre a sala de estar e o jardim, protegido de vistas da rua pelo muro periférico. A fachada para o logradouro tornou-se monumento puro e abstracto. Além da caixa de vidro do pátio, a organização do interior da casa efectuou-se pela colocação de caixas matéricas com o programa privado e de serviço, fazendo do espaço público o negativo da sua disposição no espaço, ideia conceptualmente expressa pela utilização de epoxy no pavimento como material contínuo e moldável. Se, por um lado, se procurou uma dinâmica e flexibilidade do espaço, através da exploração de elementos móveis, por outro, anularam-se os espaços de transição entre áreas privadas e públicas - reduzidas ao plano da portas, ocultas nos volumes -, acentuando-se as mudanças bruscas de ambiente através dos materiais e a utilização da cor (reminiscência do que vimos em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, de Peter Greenway): espaços exteriores com materiais existentes ou naturais - decisões implicitamente controladas pelas instâncias patrimoniais -, espaços interiores públicos com materiais tradicionais artificializados - patente no padrão ornamental dos apainelados folheados e na simulação do betão à vista inerente ao Viroc -, espaços interiores privados brancos e abstractos - captando assim toda a luminosidade possível a partir dos vãos existentes com vidro translúcido para protecção de vistas do Largo -, cozinha e instalações sanitárias provocando um choque de saturação cromática.

Jul 2009