arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Arq|a

Luís Tavares Pereira

«Os verdadeiros destinatários da crítica não são os arquitectos»

arq|a: Como interpreta as possibilidades actuais da actividade crítica na arquitectura?

LTP: Se, como se diz, a arquitectura é demasiado importante para ser deixada exclusivamente aos arquitectos, a crítica de arquitectura é demasiado importante para ser deixada a qualquer um. Se concordamos que a arquitectura é essencial para a qualidade de vida, para o desenvolvimento da própria sociedade, então a crítica de arquitectura devia ser entendida como uma ferramenta importante para que a sociedade e os arquitectos se possam entender. Como diz Goldeberg, os verdadeiros destinatários da crítica não são os arquitectos, mas as pessoas que passam pelos edifícios e os usam, os políticos que os desejam e financiam, os clientes que os encomendam e mantêm... Fazer com que o público perceba se e porquê aquele edifício, ou aquele evento, é importante, e vale o dinheiro e o tempo que se gastou, é mais do que um mero guia do consumidor: é essencialmente um acto cultural. A importância da crítica reside, simultaneamente, em dar a compreender o que é e como funciona a arquitectura e em definir um espaço de autoridade disciplinar. E se a crítica de arquitectura, em relação às diferentes críticas de cultura, sofre de um forte handycap - a sua presença nos meios de comunicação iniciou-se tardiamente (a crítica de arquitectura nos jornais anglo-saxónicos iniciou-se com regularidade apenas nos anos 60) e ainda disputa o seu espaço com os suplementos de imobiliário e decoração - em Portugal, esse handycap é ainda maior: não só assistimos a uma regressão - é significativo que um jornal como O Expresso que há 20 anos teve as páginas mais quentes de crítica de arquitectura com Paulo Varela Gomes e João Vieira Caldas na Revista, hoje remeta a arquitectura a um equívoco suplemento imobiliário, espaços & casas; o Público também reduziu substancialmente as contribuições ‘free lance' de arquitectura; e mesmo o novo i, que vai buscar o modelo à Monocle de Tyler "Wallpaper" Brulé , omite a atenção à arquitectura - como também não temos tradição académica em teoria e história de arquitectura, sendo a nossa uma realidade acima de tudo ‘pragmática' e de projecto. A ausência, em Portugal, de crítica de arquitectura regular e respeitada, cria um sentido de impunidade em que qualquer um, em particular qualquer colunista, se sente com autoridade para a exercer. Este é um equívoco em que os próprios arquitectos caem, tentados a participar no debate apenas com a sua formação e experiência, esquecendo que a escrita também é uma arte e uma profissão. Os "críticos-arquitectos" são também reflexo/razão desta situação: a crítica não se faz em part-time, como aliás se parece fazer tudo neste país. Enquanto alguns, como eu, exercem um papel de programadores, mais do que críticos, outros apenas ensaiaram timidamente esse papel, uma vez que, tão pouco, existem condições para exercer a crítica como profissão, e nem o aumento de publicações e suportes, veio alterar essa situação. E com o predomínio da imagem sobre a palavra, foi a fotografia que emergiu neste panorama como uma nova realidade profissional, abafando em definitivo a possibilidade da crítica.

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Jul 2009

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