arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Arq|a

Nuno Grande

«Como arquitectos, devemos procurar ser, \\

arq|a: Tendo definido, no âmbito do contexto da crítica arquitectónica, a ideia de "internacionalismo crítico", como interpreta as possibilidades actuais da actividade crítica na arquitectura?

NG: O conceito de "internacionalismo crítico" não foi definido por mim. Vem sendo utilizado por outros autores nacionais e estrangeiros, em diversos âmbitos e contextos. Lembro-me de ensaios e intervenções que abordam essa questão, por exemplo, entre nós, de Pedro Vieira de Almeida, ou, em França, de Jean-Louis Cohen. Na verdade, uso-o por oposição à definição de "regionalismo crítico" introduzida por Kenneth Frampton, na década de 80. Nela, o crítico britânico incluía, entre outras práticas, alguma da produção da arquitectura portuguesa e mais especificamente da chamada "Escola do Porto", situando-a, então, em torno da obra de Álvaro Siza. O "regionalismo crítico" constituiu um instrumento ideológico, arremessado por Frampton, contra as correntes historicistas e neo-vanguardistas do Pós-modernismo, e teve, quanto a mim, o efeito negativo de encerrar a arquitectura portuguesa numa "redoma" cultural, por vezes até "folclórica", aos olhos da crítica internacional. Siza nunca procurou diferenciar-se do "mainstream" arquitectónico europeu pela procura das suas "raízes" autóctones ou regionalistas; pelo contrário, e como tantos outros arquitectos portugueses ao longo da História, alimentou-se de uma leitura "universalista" do mundo - de resto, uma característica cara à nossa cultura - socorrendo-se de um conhecimento vasto sobre a evolução da arquitectura e da cidade (do Classicismo, do Movimento Moderno, do Pós-modernismo), para intervir nos mais diversos contextos, dentro e fora de Portugal. Siza sempre transformou o universal em local; não o contrário, como pretendia Frampton. Esse "universalismo crítico" - eu prefiro chamar-lhe assim - é o melhor legado metodológico que Siza transmite às posteriores gerações de arquitectos - veja-se o caso de Eduardo Souto de Moura -, mas também aos críticos e analistas da nossa produção arquitectónica. Penso que, num mundo transcultural e cosmopolita, como aquele em que vivemos, é mais interessante perceber o que nos aproxima da multiplicidade de contextos arquitectónicos e culturais, procurando colocarmo-nos na pele do "outro", do que buscar aquilo que nos diferencia e, portanto, exclui desse diálogo. Ser universalista é, sem dúvida, uma posição crítica muito mais saudável. Veja-se a título de exemplo, mas não por acaso, a mundividência política e cultural de Barack Obama.

 (…)

Jul 2009

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