arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Arq|a

Pedro Gadanho

«A crítica é uma forma de generosidade e atenção»

arq|a: Tendo referido a "escassez discursiva e ideológica" e a "escassez crítica" do contexto arquitectónico nacional, como interpreta as possibilidades actuais da actividade crítica na arquitectura?

PG: Devo dizer que continuo a achar as "oportunidades" para a crítica bastante escassas no contexto português... Tanto que eu raramente assumo ou pratico essa vertente da minha prática esquizóide (risos)... As "oportunidades" surgem apenas como parte integrante de abordagens menos clássicas: um artigo de opinião, um artigo curatorial associado a uma exposição, artigos para revistas de arte ou life-style, cartas ao editor(!) e mais recentemente no meu blogue Shrapnel Contemporary.... O que é que isto quer dizer? Que, como via profissional, esta actividade não existe - ou não é, mais precisamente, um meio de sobrevivência. As revistas de arquitectura vivem de imagens, de notícias, de memórias descritivas e de opinião não paga - o que percebo do ponto de vista do seu funcionamento económico periclitante. Os meios académicos aparecem esporádica e maioritariamente em versão de fanzine de estudante - mais uma vez baseados na generosidade dos contributos, mais que na procura da crítica especializada. E os jornais portugueses são para esquecer: meros poleiros de pessoas que estão há tanto tempo instaladas que já nem sabem o que é crítica de arquitectura (se é que alguma vez quiseram saber...). A decisão de começar um blogue, por exemplo, foi difícil. Passou por assumir que nunca sobreviveria da crítica. Logo tinha que a exercer - pontualmente, note-se - como pura generosidade... Sei que isto parece irónico, mas este é um dos aspectos que dificulta a actividade crítica em Portugal: as pessoas ainda não terem percebido que a crítica é uma forma de generosidade e atenção. O mau é-me genericamente indiferente. Não perco tempo a falar sobre o que sendo banal, não presta. Apenas critico aquilo que merece a reflexão. E a crítica é, inevitavelmente, uma chamada de atenção que serve ao outro - se este for bafejado por alguma inteligência e vontade de crescer - como estímulo para uma reconstrução, para uma ultrapassagem dos erros...

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Jul 2009

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