

Inspirada pelas vanguardas político-revolucionárias de meados do século XIX, a arte assumiu desde então uma maior independência face à sua condição decorativa, até aí ligada à manifestação do gosto burguês e aristocrata, convertendo-se justamente num instrumento crítico de incidência sobre a realidade social, alimentada pela esperança inabalável da sua transformação. Esta ideia de uma praxis artística politicamente comprometida teve no modernismo do século XX vários desenvolvimentos que a tornaram mais complexa e exigente ao nível do processo de significação, comunicando não apenas no domínio do sensorial, mas estendendo-se ainda à conceptualidade promovida pela linguagem. Com efeito, desde Marcel Duchamp que a palavra exerceu uma viragem linguística no universo da criatividade visual.
Uma parte significativa da pós-modernidade, assumida pelo pós-minimalismo dos anos 60 e 70, apostou sobretudo numa contravisualidade interdisciplinar que questionava os condicionalismos históricos da criatividade e legitimação artísticas, por oposição a uma leitura tendencialmente formalista da modernidade que defendia a autonomia e a exploração disciplinar da obra de arte. A lógica de intervenção desse pós-minimalismo progressista, como lhe chamou Hal Foster1, parecia acreditar assim nas possibilidades de transformação e compreensão da realidade social a partir da acção artística. O campo expandido da escultura, a efemeridade e a desmaterialização da obra de arte, bem como a sua exponencial politização, provocaram uma forte desestabilização, ainda que provisória, da instituição arte. Verificou-se assim um "regresso do real" que buscava uma problematização da especificidade histórica e formal dos média e do lugar institucional da própria arte, exigindo do espectador uma maior consciencialização da sua responsabilidade na construção e valorização do campo semântico da arte.
Neste sentido, uma maior aproximação da arte ao social e político resultou num dos universos criativos mais determinantes desde a segunda metade do século XX, com efeitos e repercussão até aos nossos dias. Uma atitude política ou uma reflexão sobre os seus limites atravessa hoje muitas obras de arte e o percurso de alguns dos artistas mais relevantes da nossa contemporaneidade. Basta lembrar o impacto da exposição colectiva "Utopia Station", comissariada por Molly Nesbit, Hans Ulrich Obrist e Rirkrit Tiravanija para a Bienal de Veneza de 2203, onde os valores de comunhão social e do fragmento material prometiam uma nova relação entre o observador e o significado político da acção artística. Há artistas inclusive que assumem, cada vez mais, uma postura de extrema contravisualidade, evitando a imagem, enquanto definição de um ícone, para acentuar o valor da palavra, exigindo mesmo que esta seja o veículo essencial de uma acção concreta, através de textos e exposições particularmente complexas e excessivas, definidores de um mais radical envolvimento entre a arte e a política.(...)
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