O mito da genialidade e a sua relação directa com o acto criativo têm uma origem longínqua, melhor conhecida, no entanto, entre o período renascentista e o Romantismo declarado na transição do séc. XVIII para o séc. XIX, coincidindo, não sem sentido, com o advento da época contemporânea. A exacerbada difusão do estatuto de génio artístico, na imediata identificação de uma autoria confinada à individualidade e ao sujeito, tem sido, desde então e até aos nossos dias, poucas vezes contrariada ou recusada. Todavia, no início do século XX, nomeadamente a partir das vanguardas históricas, nomes como os Delaunay, ou os Arp, lembram experiências artísticas a dois, entre marido e mulher. Poderíamos ainda evocar, neste contexto, os trabalhos colectivos do grupo cubista de Gleizes e Metzinger, os dadaístas do Cabaret Voltaire, ou a prática surrealista dos cadavre excquis, que combinava, sob o lema freudiano do inconsciente, a participação plural em desenho e pintura. No entanto, a proliferação de grupos artísticos nunca significou uma identidade autoral una e indivisível, pelo menos se compararmos esse processo de trabalho criativo com as experiências realizadas a partir do pós-guerra, onde várias duplas de artistas (casais, irmãos, ou simples compagnon de route) assumiram a partilha criativa na afirmação de um outro estatuto de autor. De outro modo, o desenvolvimento dos programas conceptuais, substituindo progressivamente o privilégio da expressão e da visualidade - ligadas sobretudo ao valor individual do acto criativo - possibilitou a ascensão de processos disciplinares mais complexos, originando uma maior e plural participação através da instalação ou da performance, contextos onde logicamente se revelou a maioria das duplas de artistas da segunda metade deste século.
Uma certa reelaboração da autoria tomou assim a forma intelectual dupla, com resultados de unidade formal, sendo certa e necessária a indissociabilidade de um contributo plural. Exemplos como os de Cleg & Guttmann, Ed e Nancy Kienholz, Mike e Douglas Starn, ou os incontornáveis Gilbert & Georges, personificam claramente uma renovada interpretação do estatuto do autor na prática das artes visuais.
Trata-se assim de analisar a forma de colaboração que leva dois indivíduos a não possuírem qualquer identidade fora da sua união. É no binómio que as diferenças e similitudes são levadas aos extremos e que o problema da autoria da obra de arte ganha maior acuidade.
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