arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Victor Neves

Leonel Moura

VICTOR NEVES Comecemos por tentar descortinar uma visão atual da arte, o que parece uma tarefa inútil, mas pegando na sua ideia da emergência de uma arte não humana e antes mesmo
de relacionar mais detalhadamente esta formulação com a sua própria atividade quando usa a robótica, por exemplo, pergunto se essa formulação quer dizer que a arte contemporânea atingiu os seus próprios limites e que existe uma crise de ideias, que se atingiu o Princípio de Peter nas artes, ou que existe da sua parte uma descrença nas capacidades do homem artista?

LEONEL MOURA Pelo contrário, penso que a arte nunca foi tão pujante, nunca o potencial foi tão grande. Sobretudo porque, na evolução artística, temos que entender que a arte, como a ciência, como a sociedade, como a própria vida, está em constante evolução. Não
terminou, não acabou, tem evidentemente avanços e retrocessos, mas está em evolução. Portanto, a evolução da arte nas últimas décadas, e sobretudo já no século XXI, vai em direção à utilização de tecnologias muito sofisticadas e a uma capacidade que as máquinas
têm delas próprias serem criativas. Por isso, estamos hoje numa situação em que não é só o humano que gera obras de arte, mas é na combinação simbiótica, poderia dizer, entre o humano e a máquina, que estamos a ser capazes de fazer uma arte nova e isso resulta
numa explosão criativa tremenda. Eventualmente, não nos damos conta porque há muito ruído. Ou seja, por um lado há muita confusão, muita arte do passado que continua a ser feita como se fosse atual, mas não o é, porque no fundo se resume ao decorativo, a expressões
pessoais, a repetir coisas que já foram feitas mil vezes antes, mas que aparecem como se fosse uma grande novidade. Essa confusão faz com que pareça que tudo é igual a tudo, tudo equivale a tudo, o que não é verdade. A arte, como disse, tem uma evolução e essa evolução é definida pelos próprios artistas. Cada artista que queira de facto continuar essa evolução tem que contribuir com qualquer coisa de novo, qualquer coisa de único, de nunca feito. Porque essa
é a natureza da arte, tal como a conhecemos. No século XX, cada novo movimento artístico abria um campo novo, dava uma nova visão do que era arte e isso continua. No meu caso, tenho promovido e demonstrado que estamos agora num momento em que, para além
dos contributos humanos, também temos contributos de máquinas e daí eu falar de uma arte não humana. (...)

VICTOR NEVES Let’s start by trying to unveil a current view of art - which may seem like a useless task. But taking your idea of a non-human art emergence and even before relating this
formulation in more detail to your own activity - when you use robotics, for example - I wonder if that formulation means that contemporary art has reached its own limits? - that there is a crisis of ideas in art? that Peter’s principle was reached in art? that there is a disbelief on your part in the capabilities of man-artist?
LEONEL MOURA On the contrary, I think that art has never been so powerful - its potential has never been greater. Especially because, in artistic evolution, we have to understand that art, like science, like society, like life itself, is constantly evolving. It is not over, it clearly has advances and setbacks, but it is evolving. Therefore, the evolution of art in the last decades, and especially in the 21st century, is moving towards the use of very sophisticated technologies and to a real capacity of using machines to be creative, themselves. Therefore, today we are in a situation in which it is not only the human that generates works of art, but it is in the symbiotic combination, I could say, between the human and the machine, that we are
being able to make a new art ,and that situation results in a tremendous creative explosion. Eventually, we don’t fully realize it because there is a lot of noise around. That is, there is a lot of confusion, a lot of art from the past that continues to be done as if it were current. But it is not because in the end it comes down to the decorative, to personal expressions, to repeat things that have already been done a thousand times before, but that appear as if it were big news. This confusion makes it appear that everything is the same as everything, that everything equals everything -which is not true. Art, as I said, has an evolution and that evolution is defined by the artists themselves.
Every artist who really wants to continue this evolution has to contribute with something new, something unique, never done before. Because that is the nature of art, as we know it. In the 20th century, each new artistic movement opened up a new field, gave a new vision of what art was and this continues to be true. In my case, I have promoted and demonstrated that we are now at a time when, in addition to human contributions, we also have contributions from machines and hence I speak of a non-human art. (...)

 (…)

Abr 2021

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