arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Robert Smithson

Tempo, entropia e arte

O trabalho de arte não se coloca num lugar, é esse lugar
Robert Smithson, 1970

Em Setembro de 1967, Robert Smithson pegou na sua máquina fotográfica e encetou uma viagem por Passaic, sua cidade natal, convertida então num subúrbio deprimente de Nova Jérsia. As imagens e os textos resultantes desse exercício, publicados na revista Artforum como projecto artístico1, revelaram a surpresa de uma paisagem ambiguamente fascinante, marcada pelos despojos de um território industrial desolado mas, não obstante, com grande capacidade de evocação. A viagem de Smithson interpretava, assim, esteticamente, as instalações industriais devastadas, como ruínas capazes de alcançar a imortalidade do monumento, assumindo aí a memória e a dignidade imersa de uma paisagem industrial esquecida e entrópica. Com The Monuments of Passaic (1967) inaugurava-se, na verdade, uma nova maneira de entender o pitoresco e a paisagem, desenhando uma mudança substancial em relação à sensibilidade da tradição paisagística norte-americana, pois o sentido crítico sobre a desolação visual não impediu o artista de assumir o potencial simbólico e significacional de uma realidade que reivindicava igualmente, apesar de tudo, o seu lugar na grande reificação da natureza (orgânica e cultural). "A única solução - dirá Smithson - é aceitar a situação entrópica e aprender a reincorporar mais ou menos essas coisas que parecem ser feias"2.

Este foi o primeiro trabalho que abordou directamente a noção de lugar como processo de desestruturação, relacionado com a erosão e a degradação industrial. Por outro lado, aí nascia a ideia de produzir arte a partir de uma nova espécie de readymade: a terra, enquanto lugar em constante transformação. "Um grande artista - escreve Smithson - pode realizar arte simplesmente com o olhar. Uma série de olhares podem ser tão sólidos como qualquer coisa ou lugar, mas a sociedade continua a valorizar apenas os objectos de arte"3.
Não podemos esquecer que a obra para um sítio específico evidencia que o lugar está em permanente mutação. É a própria intervenção artística que possibilita uma nova maneira de apreender e vivenciar o lugar, engendra novas significações e novos modos de ver. O espectador tem desse modo a sua capacidade de observação questionada, a percepção exige um trabalho: caminhar, investigar. Ver com os pés. Robert Smithson é o mais importante precursor dessa estratégia vivencial e artística. Os lugares confirmam-se assim enquanto monumentos da natureza, como dimensões de espaço e tempo que transcendem a experiência e a capacidade cognitiva individuais. As operações pontuais que o artista exerce sobre elas não procuram adequar-se ao lugar, criar um sentido de identidade, mas confrontar o observador com a complexidade e a instabilidade dessas configurações de grande escala.

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Abr 2009

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