arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves

(IN)COMPUTAÇÃO (IN)COMPUTING

A arquitetura sempre integrou a inovação e a invenção nas suas práticas, adotando ideias, materiais e técnicas inovadoras. A arquitetura contemporânea não é exceção. As abordagens emergentes de desenho baseado em computação, conhecidas como Design Computacional (CD), vieram mudar significativamente a teoria e a prática do design técnico em geral, mas na arquitetura o seu impacto ainda não foi bem assimilado pela maioria dos arquitetos. Esse impacto ainda não é totalmente reconhecido e avaliado e tem levantado uma série de dúvidas.

Como será projetado e construído no futuro (próximo) o ambiente que nos rodeia?

 A robótica, a impressão 3D e a fabricação digital - são tecnologias em evolução que estão a mudar a forma como projetamos e construímos. O desenho paramétrico já é um protagonista na resposta a estas questões. O que caracteriza o desenho paramétrico, é que alguns parâmetros críticos podem gerar uma grande quantidade de informações que, por sua vez, podem ser transformadas em formas construídas ou simplesmente fabricadas em linha. O processo permite a conversão de dados (data) em projetos de arquitetura ou de design industrial, por exemplo, que podem ser finalizados e realizados sem a intervenção humana, por robôs, ou através de printers 3D. A empresa Icon dirigida pelo proclamado Jason Ballard, já conseguiu construir um conjunto de casas de baixo custo para Austin (USA) com uma impressora 3D e outros projetos mais ambiciosos são já tecnicamente realizáveis.

Sabemos que tudo isto está no início, mas o mundo digital é incontornável e irreversível. O desenho paramétrico cresceu para incorporar a ideia de construção digital, da automação e da inteligência artificial. De facto, o desenho paramétrico pode oferecer infinitas alternativas que em breve terão o mesmo custo de produção e de construção tradicionais e, seguramente, em menos tempo. Não faz nenhuma diferença para um robô se tem de fazer uma ou cem cópias do mesmo objeto.

Por outro lado, computadores e softwares, são hoje capazes de eliminar atividades repetitivas, otimizando a produção e permitindo, entre outras coisas, reduzir o tamanho dos ateliers. Podemos chamar isto de otimização - positivo - ou um risco – perigoso - como pensam alguns?

No caso particular da arquitetura, a automação e a inteligência artificial não substituiriam, por enquanto, os arquitetos, mas isso não significa que a disciplina não sofra transformações profundas.

A saturação do mercado de trabalho e a crise pandémica, fez com que milhares de arquitetos direcionassem as suas capacidades e conhecimentos na área da informática para se introduzirem noutras disciplinas. Hoje estas realidades parecem ter sido comprovadas e mostram significativos avanços.

Sejamos francos: o que muitos ainda gostam de chamar de Inteligência Artificial, é apenas um novo tipo de ciência. O que falta acrescentar é que, obviamente, a computação vai trazer novas linguagens arquitetónicas e a adoção de novos sistemas estruturais e de novos materiais para construção. O problema é que até agora as grandes capacidades da automação têm sido usadas sobretudo para gerar espetáculo. Cidades como Dubai, Singapura, Tóquio, Londres, e até algumas de países em desenvolvimento, são disso exemplo. Os grandes ateliers usam a computação para criar um desfile de arquiteturas que promovem o espetáculo que exaltam as escalas e a “diferença” formal de uma forma inquietante, digamos, mas que na esmagadora maioria são profundamente banais na sua complexidade ou exuberância. E diga-se que em alguns casos essa banalidade contamina a obra de alguns conhecidos arquitetos contemporâneos, que progressivamente têm direcionado a arquitetura para um simples sistema produtivo.

Este número da arqa tenta refletir uma outra via - aquela que encara a computação como um manancial de descobertas para explorar. Em diferentes escalas, desde a pequena casa urbana, até à escala da cidade e dos grandes edifícios. Nas novas capacidades tecnológicas, na exploração de novos métodos construtivos, na resolução do desafio ambiental e na exploração da inteligência artificial em novos processos de criar e de pensar, tanto na arquitetura, como no design ou nas artes em geral.

 A interessante entrevista de Leonel de Moura, que publicamos neste número da arqa, dá-nos uma visão esclarecida sobre este assunto quando diz que o computador não é uma ferramenta. “O computador não é um eletrodoméstico. O computador faz muitas contas, mas não é uma máquina de calcular. O computador é uma máquina pensante e criativa. Capaz de inventar coisas inesperadas e excecionais.”

A ideia de uma arte não-humana em que Leonel Moura acredita, e que tem explorado com os seus “robots desenhadores”, não só abre a porta ao reconhecimento e desenvolvimento da criatividade das máquinas, mas exalta igualmente a criatividade da restante vida e da própria matéria. E, como sempre aconteceu ao longo da história, permite perseguir essa grande função das artes: ampliar horizontes, revolucionar o conhecimento e fazer avançar as sociedades.

Architecture has always integrated innovation and invention in its practices, adopting innovative ideas, materials and techniques. Contemporary architecture is no exception. The emerging approaches to computer-based design, known as Computational Design (CD), have significantly changed the theory and practice of technical design in general, but in architecture their impact has not yet been well assimilated by most architects. This impact is not yet fully recognized and assessed and has raised a significant number of doubts.

How will the environment around us be designed and built in the near future?

 Robotics, 3D printing and digital manufacturing - are evolving technologies that are changing the way we design and build. Parametric design is already a protagonist in the answer to these questions. What characterizes the parametric design is that some critical parameters can generate a large amount of information that can be transformed into shapes that are built or simply manufactured in line. The process allows the conversion of data into architectural or industrial design projects, for example, which can be completed and carried out without human intervention, by robots, or through 3D printers. The Icon company, managed by the proclaimed Jason Ballard, has already managed to build a set of low-cost houses for Austin (USA) with a 3D printer and other more ambitious projects are already technically feasible.

We know that all of this is at the beginning, but the digital world is unavoidable and irreversible. Parametric design grew to incorporate the idea of ​​digital construction, automation and artificial intelligence. In fact, parametric design can offer infinite alternatives that will soon have the same cost of traditional production and construction and, certainly, in less time. It makes no difference to a robot whether it has to make one or a hundred copies of the same object.

On the other hand, computers and software are now able to eliminate repetitive activities, optimizing production and allowing, among other things, to reduce the studios size. Can we call this optimization (positive) or a risk (dangerous) as regarded by some people?

In the particular case of architecture, automation and artificial intelligence would not replace architects for the time being, but that does not mean that the discipline does not undergo profound transformations.

On the other hand, the saturation of the labor market and the pandemic crisis, caused thousands of architects to direct their skills and knowledge in the area of ​​information technology to introduce themselves in other disciplines. Today these realities seem to have been proven and show more active progress.

Let’s face it: what many still like to call Artificial Intelligence is just a new kind of science. What must be added to this matter, is that computing will bring new architectural languages ​​and the adoption of new structural systems and new materials for construction. The problem is that until now the great capabilities of automation have been used mainly to generate spectacle. Cities like Dubai, Singapore, Tokyo, London, and even some in developing countries, are examples of this. The big studios use computing to create a parade of architectures that promote the show, exalting the scales and the formal “difference” in an unsettling way, say, but that in the overwhelming majority are deeply banal in their complexity or exuberance. And let it be said that in some cases this banality contaminates the work of some well-known contemporary architects, who have progressively directed architecture towards a simple productive system.

This number of the architect tries to reflect another path - one that sees computing as a source of discoveries to explore. At different scales, from the small urban house, to the scale of the city and large buildings. In the new technological capacities, in the exploration of new construction methods, in the resolution of the environmental challenge and in the exploitation of artificial intelligence in new processes of creating and thinking, both in architecture, as in design or in the arts in general

 Leonel de Moura’s interesting interview, which we published in this issue, gives us an enlightened view on this subject when he says that the computer is not a tool. “The computer is not an appliance. The computer does many calculations, but it is not a calculating machine. The computer is a thinking and creative machine. Able to invent unexpected and exceptional things.”

The idea of a non-human art that Leonel Moura believes in, and which he has explored with his “designer robots”, not only opens the door to the recognition and development of machines creativity, but also exalts the creativity of life and matter themselves. And, as has always happened throughout history, it allows us to pursue this great function of arts: broadening horizons, revolutionizing knowledge and advancing societies.

 (…)

Mar 2021

Outros artigos em Editorial

Imagem - INSERÇÕES / INDUCTIONS

INSERÇÕES / INDUCTIONS

Victor Neves O que são Inserções? No contexto da arquitetura, a palavra remete-nos para um cenário de pequenas intervenções, de reduzida escala, que se inserem em estruturas já existentes, sejam… 

Nov 2020

Imagem - A CASA NA ERA DAS PANDEMIAS

A CASA NA ERA DAS PANDEMIAS

Diretor, Victor Neves, victneves@sapo.pt Neste tempo de clausura forçada por um vírus homicida, a nossa casa revelou-se muito limitada. Pequena de espaço, pequena de horizontes, pequena para absorver os nossos… 

Jul 2020

Arquivo de Editorial