arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves

INSERÇÕES / INDUCTIONS

Victor Neves

O que são Inserções?

No contexto da arquitetura, a palavra remete-nos para um cenário de pequenas intervenções, de reduzida escala, que se inserem em estruturas já existentes, sejam elas isoladas ou em ambiente urbano, ou seja na cidade. Inserções são pequenas acupunturas construídas, que em alguns casos se pretendem definitivas e, noutros casos, efémeras e que aderem, que se acoplam em edifícios já existentes ou em espaços abertos, que se vão gerando na cidade. São muitas vezes primeiros projetos, de jovens arquitetos - pequenos programas de pequenas habitações, lojas, escritórios, pequenos equipamentos públicos ou instalações efémeras de diversa ordem. Onde os jovens arquitetos investem muitas das suas crenças e ideais e onde tentam fazer algumas experiências, mais ou menos toleradas pelos donos de obra, consoante o budget disponível para a sua construção. E, nessa medida, estas pequenas obras confundem-se com os desejos pessoais dos seus projetistas- arquitetos. Não raro vemos nestas obras um claro investimento em pequenos detalhes, no design de algum mobiliário e em materiais pouco comuns, que perseguem alguma originalidade, algumas vezes conseguida e confirmada em obras posteriores. No entanto, estas pequenas obras têm, quase sempre, uma vida útil relativamente curta. Nuns casos porque são mesmo intervenções efémeras, de raiz, e também porque são normalmente intervenções com pequenas áreas úteis- habitações para jovens casais ou famílias de pequena dimensão - ou áreas comerciais, que têm uma grande rotatividade de proprietários. O que implica frequentemente o seu desaparecimento prematuro, acabando muitas vezes demolidas Exatamente devido ao seu caráter mais ou menos efémero, estas obras recordam-nos a necessidade de encarar com mais seriedade e imaginação duas questões: - De um lado a vantagem de utilizar soluções construtivas e tipológicas mais polivalentes e mais flexíveis, que permitam adaptações e alterações posteriores Diretor Victor Neves victneves@sapo.pt mais fáceis e menos custosas dos edifícios. E isso raramente é feito no projeto. - Por outro lado a necessidade de irmos introduzindo com mais frequência e consciência materiais mais recicláveis, que evitem o impressionante desperdício de materiais decorrente de demolições, com o terrível impacto ambiental que esse processo ocasiona. As lojas e áreas comerciais são disso exemplo. São milhares de casos anuais que mudam de proprietário, de ramo ou atividade, de marca ou branding, que fecham por falência ou por outro qualquer motivo e que, quando são novamente ocupadas sofrem remodelações totais que atiram para o lixo uma enorme quantidade de materiais de revestimento, equipamento de iluminação, de condutas variadas, que vão diretamente para os contentores de desperdícios, acabando quase sempre em aterros. Estas pequenas intervenções-inserções fazem-nos também refletir sobre a necessidade (e a possibilidade) de apostar mais em arquiteturas móveis, que possam migrar de local para local, que possam ser apagadas de um determinado local, e que possam ser de novo acopladas em outras estruturas existentes e, quando aqui mencionamos as estruturas, estamos a referir-nos mesmo a esqueletos estruturais. É uma utopia perseguida que Lebbeus Woods - falecido em 2012 - tão bem representou em alguns dos seus magníficos desenhos - nas séries dedicadas a Zagreb Free-Zone ou a Sarajevo Post War, por exemplo. Woods imaginava uma espécie de “arquiteturasadesivo”, que eram literalmente volumes aderentes, verdadeiras inserções que nos conduzem, ainda hoje, para o sonho de uma cidade reciclada, que privilegie a reutilização de arquiteturas, em detrimento da compulsiva construção nova, sem fim, que temos nas nossas cidades contemporâneas. Talvez fosse um dos remédios que evitasse o suicído ambiental anunciado já neste nosso século XXI, para o qual os arquitetos, com o seu autismo e indiferença, também têm contribuído - consciente ou inconscientemente. O que não invalida a sua responsabilidade futura. Mesmo que não gostemos de falar nisso.

INSERÇÕES SÃO PEQUENAS ACUPUNTURAS CONSTRUÍDAS, QUE EM ALGUNS CASOS SE PRETENDEM DEFINITIVAS E NOUTROS CASOS EFÉMERAS E QUE ADEREM, QUE SE ACOPLAM EM EDIFÍCIOS JÁ EXISTENTES OU EM ESPAÇOS ABERTOS QUE SE VÃO GERANDO NA CIDADE. SÃO MUITAS VEZES PRIMEIROS PROJETOS, DE JOVENS ARQUITETOS- PEQUENOS PROGRAMAS DE PEQUENAS HABITAÇÕES, LOJAS, ESCRITÓRIOS, PEQUENOS EQUIPAMENTOS PÚBLICOS OU INSTALAÇÕES EFÉMERAS DE DIVERSA ORDEM. ONDE OS JOVENS ARQUITETOS INVESTEM MUITAS DAS SUAS CRENÇAS E IDEAIS E ONDE TENTAM FAZER ALGUMAS EXPERIÊNCIAS (…). INDUCTIONS ARE SMALL BUILTIN ACUPUNCTURES, WHICH IN SOME CASES ARE INTENDED TO BE DEFINITIVE AND IN OTHER CASES EPHEMERAL, THAT ARE ADHERED OR COUPLED IN EXISTING BUILDINGS OR IN OPEN SPACES GENERATED IN THE CITY. THESE ARE OFTEN THE FIRST PROJECTS MADE BY YOUNG ARCHITECTS - SMALL PROGRAMS FOR SMALL HOUSES, SHOPS, OFFICES, SMALL PUBLIC FACILITIES OR EPHEMERAL INSTALLATIONS OF VARIOUS KINDS. WHERE YOUNG ARCHITECTS INVEST MANY OF THEIR BELIEFS AND IDEALS, AND WHERE THEY TRY TO MAKE SOME EXPERIENCES (…).

 

editorialeditorial What is the meaning of “Inductions”? In the context of architecture, the word refers to a scenario of small interventions with , small scale , inserted in existing structures, wether isolated or in an urban environment, that is, in the city. Inductions are small built-in acupunctures, which in some cases are intended to be definitive and in other cases ephemeral, that are adhered or coupled in existing buildings or in open spaces generated in the city. These are often the first projects made by young architects - small programs for small houses, shops, offices, small public facilities or ephemeral installations of various kinds. Where young architects invest many of their beliefs and ideals, and where they try to make some experiences more or less tolerated by the owners, depending on the budget available for their construction. To that extent, these small works are often confused with the personal desires of their architectdesigners. It is not uncommon to see in these works a clear investment in small details, in the design of some furniture and in unusual materials, which pursue some originality, sometimes achieved and confirmed in later works. However, these small works have, normally, a relatively short service life. In some cases, because they are ephemeral interventions, from the very beginning, and also because they are usually interventions with small useful areas - housing for young couples or small families - or commercial areas, which have a high turnover of owners. This often implies its premature disappearance, often ending up demolished Exactly due to their more or less ephemeral character, these works remind us of the need we have to face two issues with more seriousness and imagination: - On the one hand, the advantage of using more versatile and more flexible constructive and typological solutions, allowing easier and less costly later adaptations and renovations to existing buildings. And this is rarely done on the project. - On the other hand, the need to introduce more recyclable materials- more frequently and consciously- avoiding the impressive waste of materials resulting from demolitions, with the terrible environmental impact that this process causes. Shops and commercial areas are good example of this. There are thousands of annual cases changing their ownership, branding or activity, or closing due to bankruptcy or to any other reason. And when they are occupied again, they suffered a total remodeling process that throw a huge amount of materials into the trash, of coating materials, lighting equipment, of various pipes and fans, which go directly to the waste containers, almost always ending up in landfills. These small interventions-inductions also make us reflect on the need (and the possibility) to invest more in mobile architectures, which can migrate from place to place, erased from a certain place, or coupled again in other existing structures - and when we mention the “structures” here, we are in fact referring to structural skeletons. It is a persecuted utopia that Lebbeus Woods - who died in 2012 - represented so well in some of his magnificent drawings - in the series dedicated to Zagreb Free-Zone or Sarajevo Post War, for example. Woods imagined a kind of “adhesive architectures”, which were literally adherent volumes, real insertions that lead us, even today, to the dream of a recycled city, favoring the reuse of architectures to the detriment of compulsive new, endless construction, that we have in our contemporary cities. Perhaps it was one of the remedies that prevented the environmental suicide already announced in our 21st century, to which the Architects, with their autism and indifference, have also contributed - consciously or unconsciously. This does not invalidate their future responsibility. Even though they don’t like to talk about it

 

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Nov 2020

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