arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Livros

por: Mário Chaves

Deyan Sudjic, "A Linguagem das Cidades"

Jorge Figueira,

Deyan Sudjic, A Linguagem das Cidades, GG, São Paulo, 2016, ISBN 978 85 8452 154 8

O nómada pastor Abel sucumbiu ao sedentário agricultor Cain; o lugar fundado da cidadania, que Aristóteles consolidou como ideia metafísica e a que Santo Agostinho veio a santificar na Cidade de Deus, iniciou uma constante preposição de ocupação territorial, consolidando o que chamamos e conhecemos como Mundo, contrário a uma Natureza que desprezamos e que nos serve sem limites. O Mundo cresce, desde a primeira manifestação de cidadania, cresce inexoravelmente até sermos 7 mil milhões e sem limite, onde todos querem ser urbanos. Ser urbano é sobretudo estar agregado a um conjunto vasto e anónimo de outros anónimos, na incaracterística  do anonimato, do individualismo, onde as novas expressões de satisfação atiram tudo o que não é urbano para o território da terra incógnita, porque mesmo com Google, com GPS e outros sistemas mundiais, o grau de desprezo e ao mesmo tempo de desconhecimento impedem de dar qualquer tipo de valor ao território, a não ser ao lazer híbrido e assético, e à exploração exaustiva dos recursos disponíveis. Já conhecemos inúmeros tipos de cidades em estrutura e linguagem formal; na contemporaneidade, vivemos melhor numas, gostamos mais de outras, evitamos outras ainda. O mundo que avança desvairadamente na urbanização, concatena todas as especialidades do engenho humano e fomenta e sublima quase todos os vícios, talvez o maior, o da ganância, pelo deus ex machina, que nas cidades se engrandece. Pode dizer-se que o século XX ensaiou toda a capacidade de alterar a estrutura de cidade que conhecemos em 4000 anos; o século XXI do terceiro milénio já rompe com toda a tradição e augura linguagens de urbanidade totalmente novas e disruptivas. A cidade será só uma ideia, sustentada apenas em tecnologia, sem identidade, comandada por inteligência artificial e onde os cidadãos vivem em perpétuo estado alienado de entretenimento? Parece caminhar-se para tal, onde a riqueza é concentrada, o desperdício imenso, o domínio total dos cidadãos pelas redes sociais, que lhe controlam os gostos e as necessidades, onde a banalidade e a vulgaridade imperam, num esbanjamento imenso de energias e tempo. Todas as cidades parecem iguais, estereotipadas, sem arte, sem virtudes. Apenas eficazes em manter ocupados os cidadãos alheados da política que Platão preconizava. E, contudo, estamos definitivamente presos à quimera da cidade ideal que nunca desiste da sua eternidade.

(...)

Jorge Figueira, Arquitectanic, Os Dias da Troika, Note, Lisboa, 2016, ISBN 978 989 99673 0 4

O pensamento; o raciocínio, qual combustível do pensamento, que não é necessariamente a inteligência, ainda menos a inteligência artificial, é capaz de, na sua entropia, sugestionar a construção de um valor de uma ideia que pode incendiar o mundo e desencadear ondas de choque poderosas e consequentes. O raciocínio é sobretudo especulativo, a inteligência é operativa e o pensamento é executivo. A ideia de um texto de Arquitetura em 440 palavras e 2700 caracteres é ser austero quanto consequente, determinista na objetivação da ideia, mas indeterminista na sua condução, na liberdade do pensamento em ser capaz de causar espanto, reflexão e interrogação. A escrita de arquitetura, sobre a relação da arquitetura e do arquiteto com o Mundo, é estranha no sentido em que as palavras enunciam o entendimento da transformação da terra pelas necessidades e vaidades das sociedades. Porque a arquitetura interage com tudo, nada fica inócuo e tudo é relevante ou nada é irrelevante. refletir sobre o mundo transformado pela arquitetura é dar-lhe o pleno valor em todo os seus graus e qualidades. Porque a humanidade é o mundo e este tem todos os vícios e virtudes, nas suas consistências e inconsistências, surpresas e desvios que conferem o grau de singularidade e singeleza que se quer pelo efeito catalisador do raciocínio, essa arma tremendamente eficaz de superar os desafios e surpreender e capacitar, pela invenção, novos valores. É política. (...)

 

 

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Mar 2020

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