arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Opinião

por: Luís Manuel Pereira

(NON) Urban: projetar para (e nos) limites.

Sobre o Tema da edição #137 arqa

EDITORIAL 137

(NON) Urban: projetar para (e nos) limites.

A cidade contemporânea constrói-se a partir da assimilação e integração das periferias, sendo estes novos territórios o grande campo de experimentação da imagem arquitetónica do século XXI

Contudo a sua abordagem nem sempre foi pacifica, talvez pela sua descontinuidade ou mesmo pelo confronto com a cidade consolidada. No entanto é ali o espaço de eleição capaz de suscitar a invenção. Espaços fragmentados que para os arquitetos suscitam o imaginário na procura de novas abordagens capazes de processarem a invenção. Para a periferia são hoje remetidas diversas funções, sendo eu objeto de diversas intervenções desde o ponto de vista económico e a nível social e cultural.

Contudo não é fácil este processo, pois há dois vetores em confronto: centralidade e segregação territorial. Há sempre para os arquitetos a tentação de plasmar os centros urbanos.  

Podemos por isso afirmar que o desenho destes territórios, enquanto territórios abertos á especulação projetual, passa cada vez mais por um exercício de idealizações cada vez mais plural, incapaz de prescindir de processos criativos eminentemente singulares e pessoais.

O conjunto de projetos apresentado, a opção de publicar projetos domésticos é intencional por serem campos de experimentação com capacidade de organizar esses territórios, tem como base uma envolvente pouco significativa, como é o caso De Ricardo Vieira de Almeida na casa projetada para Aveiro. É o ambiente interno, que cria a estrutura urbana. O processo dá-se de dentro para fora, através de pequenos pátios e arruamentos internos que organizam a relação interior e exterior. A utilização dos materiais, betão e madeira são expressão da vontade de aproximação à envolvente, onde uma vegetação abundante predomina.

No Caso da Casa Zauia, de Mário Martins em Lagos é a paisagem que organiza o desenho. Implantada numa colina sobranceira a um vale de uma grande riqueza paisagística, surge como um volume branco horizontal a pontuar essa paisagem. O terreno absorve o volume parcialmente enterrado, surgindo este, como se de um abrigo se tratasse. Um único piso, finalizado por uma varanda/pátio de generosa dimensão, organiza todas as funções, cuja cobertura está preparada para ser a continuidade da vegetação envolvente.

Maria Fradinho, para a Casa do Arco, foi a procura da referências à arquitetura industrial, pela proximidade de tipologias dessa característica, a organizar o desenho. Cria um volume cujo corpo apresenta dois significados: O invólucro exterior é independente do interior. O volume à partida depurado é articulado e ligado por um pátio que faz a rutura com o exterior e que cria espaços com caracter, que garantem a transição entre o público e o privado.  

A Casa do Laranjal de Pedro Marques Alves é um volume com as mesmas características do projeto referido anteriormente, mas com outra escala, funcionalidade e materialidade. Aqui o conceito de reaproveitamento de materiais prevaleceu, onde a madeira e a cortiça são protagonistas. A Casa do Laranjal é um apoio a uma instalação industrial, cujo desafio foi a reutilização de materiais provenientes de demolições com o objetivo de criar um espaço de refeições e de descanso dos trabalhadores das instalações de uma empresa. Parte do projeto é um puzzle de encaixe das peças disponíveis., aproveitando a estrutura que pertenceu a um edifício pombalino.

José Carlos Nunes de Oliveira, na Casa MAMI organiza num lote plano com geometria irregular, um volume depurado em que a minimização de custos, não impediu um rigor no desenho e uma conciliação do formalismo que remete para a criação objetiva de uma imagem na paisagem suburbana. Este volume, rasgado por grandes planos envidraçados contém em si um programa doméstico, onde a simplicidade dos materiais e a inexistência de planos divisórios prevalecem. 

Posto isto, podemos afirmar que estes territórios se apresentam como um vasto campo da experimentação projetual e consequentemente nos obrigam a reflexões permanentes e para as quais os arquitetos apresentam respostas objetivas. 

The contemporary city is built from the assimilation and integration of the peripheries, these new territories being the great field of experimentation of the architectural image of the 21st century.

However, its approach was not always peaceful, perhaps due to the discontinuity or even the confrontation with the consolidated city. But then again this is the space of choice capable of giving rise to invention. Fragmented spaces that, for architects, promote the imagination in the search for new approaches capable of processing the invention. Today, various functions are sent to the periphery, and I am the object of several interventions from an economic point of view and at a social and cultural level.

However, this process is not easy, as there are two conflicting vectors: centrality and territorial segregation. There is always a temptation for architects to shape urban centers.

We can therefore affirm that the design of these territories, as territories open to project speculation, more and more passes through an exercise of plural idealizations, unable to dispense unique and personal creative processes.

The first set of presented projects, the option for housing projects, is intentional because they are experimentation areas, with the capacity to organize these territories, based on a non-significant environment, as is the case of Ricardo Vieira de Almeida, in the design of Aveiro house. It is the internal environment that creates the urban structure. The process takes place from the inside out, through small courtyards and internal streets that organize the interior and exterior relationship. The use of materials, concrete and wood, express the desire to approach the environment, where abundant vegetation predominates.

In Zauia house, by Mário Martins, in Lagos, Algarve, it’ s the landscape that organizes the drawing. Set on a hill overlooking a valley of great landscape richness, it appears as a horizontal white volume punctuating this landscape. The land absorbs the partially buried volume, like a shelter. A single floor, finished by a generous balcony/patio, organizes all the functions, whose roof is prepared to be the continuity of the surrounding vegetation.

Maria Fradinho, in Arco house, was looking for references to industrial architecture, due to the proximity of this kind of typologies. She creates a volume whose body has two meanings: the outer shell is independent of the inside. The purified volume is articulated and connected by a patio that breaks with the outside and creates spaces with character, which guarantee the transition between the public and the private.

The Laranjal house, by Pedro Marques Alves, is a volume with the same characteristics of the project mentioned above, but with another scale, functionality and materiality. Here the concept of recycling materials prevailed and wood and cork are the protagonists. Laranjal house is a support for an industrial installation, whose challenge was the reuse of materials from demolitions in order to create a space for meals and rest for workers at the premises of a company. Part of the project is a puzzle to fit the available pieces, taking advantage of the structure that belonged to a Pombaline building.

José Carlos Nunes de Oliveira, at MAMI house, organizes in a flat plot of land, with irregular geometry, a purified volume in which the minimization of costs, did not prevent a rigor in the design and a reconciliation of the formalism that refers to the objective creation of an image in the suburban landscape. This volume, torn by large glazed plans, contains a domestic program in itself, where the simplicity of materials and the lack of dividing areas prevail.

That said, we can conclude that these territories offer themselves as a vast field of project experimentation and, consequently, take us to permanent reflections to which architects present objective answers.

 

 (…)

Mar 2020

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