arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves |victneves@sapo.pt

[NON] URBAN

[NON] URBAN

victneves@sapo.pt

NON-URBAN: AS CONTRADIÇÕES DA URBANIDADE

NON- urbano significa a negação do urbano. E urbano significa aquilo que é próprio da cidade, mas também pode significar, indiretamente, um espaço que é, de uma forma ou outra, ordenado e com algum tipo de hierarquia.

Urbano significa também um meio socializado, gregário, o oposto do isolado. E significa ainda o que é civilizado em oposição ao que é primitivo, atrasado, rústico.

 Mas pode também e ainda significar o que é caótico (de trânsito), ruidoso, confuso em termos de orientação, em oposição à placidez e constância do mundo rural.

 NON- urbano pode ser entendido, então, como tudo aquilo que está fora do limite urbano, da “cidade” - os arredores, os arrabaldes- e também como aquilo que não é planeado, que é desordenado e, contraditoriamente e cumulativamente, como aquilo que é pouco civilizado e desenvolvido- o que é rústico e rural. E ainda pode ser o que está fora da confusão urbana, rodeado de natureza, belo e até luxuriante por via da prevalência da própria natureza. NON- urbano tem, portanto, significados diversos e até contraditórios.

No contexto de uma transurbanidade que, aparentemente, já não distingue o que é urbano do que é rural, e que já não consegue distinguir os limites físicos do que é ordenado ou desordenado, onde afloram terminologias diversas que induzem conceitos de hibridização do território como suburbano, periurbano ou rur- urbano e onde vários continentes sofrem uma intensa colonização do seu território com vastas bolsas construídas sem ordenamento programado, onde a pressão demográfica é sensível , a arquitetura tem conseguido e sabido mover-se.

No contexto nacional (e também europeu), onde estes territórios non-urbanos constituem a área urbanizada maioritária, os arquitetos portugueses têm usado esses territórios para construírem as suas primeiras obras e para conseguir mercado de trabalho, sobretudo no domínio da habitação individual. É um facto que a arquitetura produzida nesses territórios é muitas vezes banal, repleta de clichés formais, mas também encontramos aí obras muito interessantes, com rasgos de originalidade e em alguns casos, consistentes no seu valor formal, construtivo e poético. Aí encontramos obras onde se explora a introdução de materiais reciclados, provenientes de demolições de outros edifícios, e diferentes formas de os reaplicar, obras que exploram novas técnicas estruturais e construtivas ou, que recuperam técnicas antigas. Aí encontramos casos que exploram tipologias híbridas de casa e trabalho, ou de casa e oficina e casos que exploram as áreas mínimas e de baixo custo. Mas também encontramos os casos daqueles que têm oportunidade de projetarem e construírem casa de luxo, em sítios isolados (NON-urbanos) e que, são exemplos de como respeitar a paisagem e de como integrar a natureza. Há de tudo.

Num outro contexto e noutros cenários, os arquitetos têm também tentado intervir em áreas degradadas, de construção espontânea e encontrar vias para introduzir espaços públicos qualificados, equipamentos públicos e inverter ambientes que, sendo intensamente construídos, carecem de qualquer tipo de ordenamento e de organização a diversos níveis, e que por isso não são “cidade”. Ou seja, são também NON -urbanos. Como o bairro da Chacarita em Assunção-Paraguai onde decorreu a XI BIAU-Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo  de 2019 e da qual a arqa publica, neste número, um interessante dossier. Aqui, é fácil perceber a realidade presente em grande parte do mundo atual- vastas áreas habitadas que carecem de tudo, incluindo de urbanidade. E de como a arquitetura pode impulsionar soluções que as podem mudar. Mesmo que lentamente.

Num contexto atual, e retirando os núcleos urbanos históricos e as áreas urbanas planeadas, que foram estruturadas através de instrumentos de planeamento e de ordenamento, o território dito habitado é híbrido, misto e flutuante, caracterizado pelos mecanismos do urban-sprawl. Não é urbano.

NON-URBAN: THE CONTRADICTIONS OF URBANITY

NON- urban means the negation of the urban. And urban means what is typical of the city, but it can also indirectly mean a space that is, in one way or another, ordered and with some kind of hierarchy.

Urban also means a socialized, gregarious environment, the opposite of the isolated. And it also means what is civilized as opposed to what is primitive, backward, rustic.

 But it can also and still mean what is chaotic (traffic), noisy, confused in terms of orientation, as opposed to the placidity and constancy of the rural world.

Then, NON- urban can be understood, as everything that is outside the urban limit, outside the “city” -the surroundings, the suburbs- and also as that which is not planned, which is disordered and, contradictorily and cumulatively, as that which is not very civilized and developed - which is rustic and rural. And it can still be what is outside the urban confusion, surrounded by nature, beautiful and even lush, due to the prevalence of nature itself. NON-urban has, therefore, diverse and even contradictory meanings.

In the context of a trans-urbanity that, apparently, no longer distinguishes what is urban from what is rural, and which is no longer able to distinguish the physical limits of what is ordered or disordered, where different terminologies emerge inducing concepts of hybridization of the territory as sub-urban, peri-urban or rur-urban and where several continents undergo an intense colonization of their territory with vast built areas without a planned order where demographic pressure is sensitive - architecture has been able to insinuate itself.

In the national (and also European) context, where these non-urban territories constitute the majority urbanized area, Portuguese architects have used these territories to build their first works and to obtain a job market, especially in the field of individual housing. It is a fact that the architecture produced in these territories is often banal, full of formal clichés, but we also find there very interesting works, with characteristics of originality and in some cases, consistent in their formal, constructive and poetic values. There, we find works where the introduction of recycled materials from demolitions of other buildings is explored, finding different ways of reapplying them, works that explore new structural and constructive techniques or that recover old techniques. There, we find cases that explore hybrid typologies of home and work, or home and workshop and cases that explore minimal and low-cost areas. But we also find the cases of those who have the opportunity to design and build luxury homes, in isolated sites (NON-urban), examples of how to respect the landscape and how to integrate nature. We can find everything.

In another context and in other scenarios, architects have also tried to intervene in degraded areas, of spontaneous construction and to find ways to introduce qualified public spaces, public equipment and invert environments that, being intensely built, lack any type of organization in different levels, and where the “city” does not exist. That is, they are also NON -urban. Like the Chacarita barrio in Asunción-Paraguay where the XI BIAU-Bienal Ibero-Americana de Arquitectura e Urbanismo 2019 took place and of which our arqa magazine publishers, in this issue, an interesting dossier. Here, it is easy to understand the reality present in much of the world today - vast inhabited areas that lack everything, including urbanity. And how architecture can drive solutions that can change them. Even if slowly.

In a current context, and excluding the historical urban centers and the planned urban areas which were structured through planning and planning instruments, the so-called inhabited territory is hybrid, mixed and floating, characterized by the mechanisms of urban-sprawl. It is not urban.

 

 

 (…)

Mar 2020

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