arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Opinião

por: Luís Manuel Pereira

JOÃO ÁLVARO ROCHA

A IDENTIDADE DO LUGAR COMO PREMISSA DE UM CONCEITO | THE IDENTITY OF A PLACE AS A PREMISE OF A CONCEPT

O projeto de arquitetura tem premissas próprias e únicas, no qual, há que dar respostas a um programa e a um lugar. Tendo em conta que o conceito é algo abstrato, para João Álvaro Rocha é uma espécie de pauta para a coerência no processo da execução do projeto. A obra de João Álvaro Rocha apresenta um denominador comum: um processo eficaz no desenho conceptual finalizando a concretização do projeto. Mesmo antes da conclusão da sua licenciatura em 1986, desenvolve uma série de projetos no escritório de José Gigante e Francisco Melo, tendo desenvolvido uma diversidade de obras em coautoria com o primeiro, as quais vieram a ter um grande reconhecimento nacional e internacional. Na década seguinte abre o seu próprio atelier, onde as moradias unifamiliares e a habitação social tem enorme protagonismo. Nas obras desenvolvidas, o cuidado com o lugar, e tirando partido deste, organiza um discurso de pensamento no ato de projetar, cuja finalidade é o equilíbrio do tecido urbano. Essas premissas verificam-se em todas as obras apresentadas. Na Casa da rua do Arco, desenhada num lote estreito, de um loteamento como tantos outros. Através da manipulação de um conjunto de elementos, consegue uma articulação do programa proposto conciliando espaços interiores e exteriores, propondo um volume extenso, onde desenvolve uma série de histórias com intrigas, cadenciando a relação desses espaços. Em Penela, uma periferia urbana como tantas outras, organiza a topografia de forte pendente, com uma implantação do(s) edifício(s) regrando uma composição ordenada, criando uma relação inteligente do público e o privado. Basta verificar a forma como é coordenada a repetição modular que está diretamente relacionada com os elementos estruturais e infraestruturas, flexibilizando os espaços interiores os quais permitem ajustes a partir da alteração do agregado familiar. Num terreno rural, o Conjunto habitacional de Gemunde, define um sistema de relações em que o domínio da escala atenua a presença do conjunto na paisagem. A topografia foi respeitada na integra, implantando os edifícios no sentido longitudinal, explorando a relação destes com a paisagem, onde os extensos percursos que marcam a aproximação aos blocos, regram o lugar. Com o Laboratório Nacional de Investigação veterinária em Vairão, estabelece também uma relação de equilíbrio através da fragmentação dos corpos que compõem o edifício e a paisagem. O conjunto emerge pontuando a paisagem, procurando a trilogia unidade, conjunto e território. A complexidade do programa é resolvida através da criação de espaços que resultam numa síntese formal, onde a multiplicidade de leituras assume protagonismo. A forma é afinal o modo da expressão final do objeto arquitetónico. A maneira como gere de forma eficaz a relação entre terreno e território, observa-se novamente no Parque de Lazer dos Moutidos, cujo objetivo é gerir o difícil equilíbrio entre projeto e território. As formas construídas acoplam-se à paisagem. Persegue-se a simplicidade num território de fortes tensões. A prerrogativa repete-se na Quinta da Gruta, na qual se mantem o protagonismo do espaço físico existente. A transformação do espaço com uma forte identidade em espaço de lazer e educação faz-se com a adição de diversos elementos que não tiram o protagonismo da Casa mãe. A Escola de Educação Ambiental é um exemplo disso, ao assumir-se como elemento secundário sem, contudo, deixar de evidenciar uma nova identidade tanto formalmente como plasticamente. Na estação de Metro do Porto, a forma como entende a escala urbana é o passo para criar uma estrutura pesada e marcante no território. A paisagem urbana fragmentada exige uma ideia global, e isto é experimentado com sentido e lógica, cujo objetivo é o de construir cidade. Para João Álvaro Rocha, a realização de um projeto esteva sempre interligado à condição da existência de um lugar. O programa era o meio de organizar esse lugar. Destaca-se o controlo do projeto em si, em que o domínio do processo se entende desde os desenhos concetuais até à sua concretização em obra, e que se pode entender um grande rigor e concretizado com grande eficácia.

 

The architectural project has its own unique premises, in which must be given answers to a program and a place. Assumed that, the concept is something abstract, for João Álvaro Rocha is a kind of agenda for consistency in the process of project implementation. João Álvaro Rocha’s work has a common denominator: an effective process in conceptual design finalizing the project’s realization. Even before completing his degree, in 1986, he develops a series of projects at the office of José Gigante and Francisco Melo, having developed a variety of works in co-authorship with them, which have gained great national and international recognition. In the following decade, he opened his own atelier, where single-family homes and social housing played a major role. In the developed works, taking care of the place, and taking advantage of it, organizes a thought discourse in the act of designing, whose purpose is the balance of the urban fabric. These premises are true in all the works presented. In Casa da Rua do Arco, drawn on a narrow plot, in a subdivision like so many others. Through the manipulation of a set of elements, it achieves an articulation of the proposed program by conciliating interior and exterior spaces, proposing an extensive volume, where it develops a series of stories with intrigue, cadencing the relationship of these spaces. In Penela, an urban periphery like so many others, organizes the topography of a vertical slope, with an implantation of the building (s) regulating an orderly composition, creating an intelligent relationship between the public and the private. Just check how the modular repetition is coordinated, directly related to the structural elements and infrastructures, making the interior spaces more flexible which allow adjustments from the change of the household. In a rural land, the Gemunde Social Housing defines a system of relationships in which mastery of scale attenuates the presence of the housing in the landscape. The topography was respected in full, implanting the buildings in the longitudinal direction, exploring their relationship with the landscape, where the extensive paths that mark the approach to the blocks, rule the place. With the National Veterinary Research Laboratory, in Vairão, it also establishes a balance relationship through the fragmentation of the bodies that make up the building and the landscape. The set emerges punctuating the landscape, seeking the trilogy unity, set and territory. The complexity of the program is solved by creating spaces that result in a formal synthesis, where the multiplicity of readings takes centre stage. Form is after all the mode of final expression of the architectural object. Again, in Moutidos Urban Park, whose goal is to manage the difficult balance between project and territory, we can see the relationship between terrain and territory effectively managed. The built forms engage the landscape. Simplicity is pursued in a territory of strong tensions. The prerogative is repeated in Quinta da Gruta, where the protagonism of the existing physical space is maintained. The transformation, with a strong identity leisure and education, is made by the addition of several elements that do not reduces the protagonism of “mother house”. The School of Environmental Education is an example of this, by assuming itself as a secondary element, but without failing to highlight a new identity, both formally and plastically. At Oporto Subway Station, he understands the urban scale as a step to create a heavy and striking structure in the territory. The fragmented urban landscape demands a global idea, and this is experienced with meaning and logic, whose aim is to build a city. To João Álvaro Rocha, the awareness of a project, was always correlated to the characteristics of the place. The program was the way of organizing it. The control of the project itself stands out: the process domain is understood from the conceptual drawings to its realization on site, which implies great rigor and great effectiveness.

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Dez 2019

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Dez 2019

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