arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves |victneves@sapo.pt

João Álvaro Rocha

Heranša Heritage

A arqa dedica este seu número à obra de João Álvaro Rocha, arquiteto do Porto, que desapareceu prematuramente com apenas 55 anos de idade. O falecimento do João foi, na altura em que ocorreu, um choque para todos os que o conheciam. Não tanto pelo desaparecimento de alguém que se conhecia e com o qual se tinha uma relação pessoal de afinidade, profissional ou académica – que era mais o meu caso – mas sobretudo pela consciência brutal de que, então, desaparecia um arquiteto com um imenso potencial, com uma obra de grande qualidade que era seguida atentamente por colegas e alunos de arquitetura . João era filho de um pintor- Álvaro Rocha - formado pela ESBAP nos anos 50, que foi conterrâneo de Carlos Ramos e de muitos outros arquitetos, entre os quais Álvaro Siza. Na ESBAP (Escola Superior de Belas Artes) que antecedeu a FAUP- Faculdade de Arquitetura do Porto, João Álvaro Rocha, privou enquanto aluno com Alexandre Alves Costa ou Alberto Carneiro, entre outros. Foi aluno de Siza Vieira, no seu último ano do curso. Trabalhou com outros arquitetos também eles muito ligados a essa Escola: Jorge Gigante, Francisco Melo e José Gigante,Pedro Ramalho, Bernardo Távora e construiu uma grande proximidade com Eduardo Souto Moura, com quem mantinha conversas e afinidades…e que foi, aliás, o autor do edifício onde João tinha o seu atelier, na Maia. A sua marca estendeu-se também ao ensino da arquitetura. Lecionou no Curso de Arquitetura, primeiro na ESBAP e depois na FAUP – Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e depois, mais episodicamente, fora do País, em Barcelona, Navarra , Nova Yorque e em Cagliari. No Porto exerceu docência durante aproximadamente 15 anos. Muitos recordam-no como um professor de excelência. Ainda hoje encontramos um imenso potencial pedagógico no processo de projecto e nas obras de João Álvaro Rocha. As suas ferramentas, muito científicas -
Diretor Victor Neves victneves@sapo.pt
tese, antítese e síntese - que Conceição Melo refere na entrevista que deu à arqa permitiam não só construir o conceito, e descobrir a forma – límpida e clara, na maioria das vezes, como também permitia encontrar as soluções construtivas mais eficientes e económicas, características da sua própria obra. Tudo isto alicerçado numa prática e numa crença “(...) do desenho, da ideia estar no sítio, do Siza”, como disse um dia numa entrevista. João Álvaro Rocha é, hoje, para além do mais, um fiel representante daquilo que se convencionou designar como a Escola do Porto – ela própria influenciadora de várias gerações de arquitetos portugueses do pós-revolução de 1974. Não tanto a Escola formada pelo quase mítico Carlos Ramos, que foi, durante os anos 50, uma importante fortaleza de oposição à arquitetura monumentalista e pretensamente tradicionalista do salazarismo, mas sobretudo a Escola de Távora, Siza, Alves Costa que encontramos descrita e comentada nas páginas das Páginas Brancas (edição Arquitectura FAUP/ ESBAP, 1986). Não tanto no texto inicial de Nuno Portas, ambíguo e laudatório, mas na linearidade e sinceridade de outros textos – de Álvaro Costa, Domingos Tavares, Manuel Mendes e , sobretudo, de Eduardo Souto Moura. É a Escola assente “(…) na prática do projeto, reflexo da supremacia do desenho, na síntese globalizadora da diversidade (…)” , que promove a “(…) valorização da história e da teoria da arquitetura, no processo de sedimentação do território disciplinar (…) como a construção e o urbanismo”.

arqa dedicates this issue to the work of João Álvaro Rocha, architect of Oporto, who disappeared prematurely at the age of 55. The death of João was, at the time it occurred, a shock to all who knew him. Not so much because of the disappearance of someone we knew and with whom we had a personal affinity, professional or academic relationship - which was more my case - but above all because of the brutal awareness that, at that time, an architect with huge potential disappeared, with a work of great quality, closely followed by colleagues and students of architecture. João was the son of a painter - Álvaro Rocha - formed by ESBAP in the 1950s, who was a fellow countryman of Carlos Ramos, and of many other architects, including Álvaro Siza. At ESBAP (Oporto School of Fine Arts) that preceded FAUP (Oporto Faculty of Architecture), João Álvaro Rocha, fraternized, as a student ,with Alexandre Alves Costa or Alberto Carneiro, among others. He was a student of Siza Vieira, in his last year of the course. He worked with other architects who were also very close to this school: Jorge Gigante, Francisco Melo and Jose Gigante, Pedro Ramalho, Bernardo Távora and built a close proximity with Eduardo Souto Moura, with whom he had conversations and affinities… and whom was, by the way, the author of the building where João had his atelier, in Maia´s town. His brand also extended to the teaching of architecture. He taught at the Architecture Course, first at ESBAP and then at FAUP and then, more episodically, abroad, in Barcelona, Navarre, New York and Cagliari. In Oporto he taught for approximately 15 years. Many remember him as a teacher of excellence. Even today we find an immense pedagogical potential in the design process of João Álvaro Rocha. His very scientific tools - thesis, antithesis and synthesis- which Conceição Melo refers to in his interview with

arqa, not only allowed him to construct the concept, but also to discover the form - clear, in most cases- but also to find the more efficient and economical building solutions, characteristic of his own work. All of this is based on a practice and belief “(...) on drawing, on the idea being at the sites, of Siza”, as he once said in an interview. João Álvaro Rocha is today, moreover, a faithful representative of what is conventionally known as the Oporto School - itself influencing several generations of Portuguese architects of the 1974 post-revolution. Not so much the School formed by the almost mythical Carlos Ramos, which was, during the 1950s, an important fortress of opposition to the monumental and allegedly traditionalist architecture of Salazarism, but above all the Távora´s, Siza´s, Alves Costa´s School that we find described and commented in the pages of “White Pages” (edition). Architecture FAUP / ESBAP, 1986). Not so much in the initial text of Nuno Portas, ambiguous and laudatory, but in the linearity and sincerity of other texts - by Álvaro Costa, Domingos Tavares, Manuel Mendes and, above all by Eduardo Souto Moura. It is the School based on “(…) project practice, a reflection of the supremacy of drawing, the globalizing synthesis of diversity (…)”, which promotes the “(…) appreciation of history and theory of architecture, in the process of disciplinary sedimentation of territory (…) such as construction and urbanism”.

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Dez 2019

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