arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Opinião

por: Luís Manuel Pereira | luismanuelpereirarevarqa@gmail.com

(Trans) cultura: edifícios culturais: a dinâmica da narrativa urbana | Trans) culture: THE DYN AMICS OF URBAN NARRATIVE

[in english below]

Atualmente a força e o dinamismo que as cidades concentram no seu território, quer pelo número de indivíduos, quer pelo número de instituições que nela se situam é algo a salientar. Tanto os indivíduos bem como as instituições, pela forma como ocupam e utilizam o espaço são agentes transformadores do mesmo. O desenvolvimento e aumento dos espaços urbanos pressupõe o surgimento de novas instituições e consequentemente novos atores, os quais contribuem de forma redundante para a diversidade de experiências que os espaços urbanos concentram. A promoção urbana cria novas imagens para serem vendidas num mercado cada vez mais global, ao mesmo tempo em que promove rearranjos espaciais para readequá-las às novas necessidades locais. A utilização da cultura como ferramenta do planeamento estratégico e marketing urbano recorre a edifícios culturais ícones para iniciar processos de promoção e renovação. Assim, optou-se por trazer alguns projetos que, pela sua qualidade e vitalidade nos permitem perceber fenómenos inerentes à dinâmica cultural da atualidade. Não restam dúvidas que surgem como obras transformadoras do território e integram discursos plurais nas áreas onde se inserem. O atelier Chevalier e Morales, projeta a Casa da Literatura, para o templo de Wesley em Quebec, um edifício neogótico e icónico. A este edifício é anexado um novo volume depurado, não menos simbólico, mantendo toda a amplitude do seu espaço de origem. Propõe-se uma nova dialética, remetendo-nos para o século XXI, era das novas redes sociais. Quando nos referimos ao século XXI, Jean Nouvel, traz-nos um edifício imersivo e experiencial - o Museu Nacional do Qatar. A partir do Palácio do Sheikh Abdullah Bin Jassim Al Thani, o novo museu referencia como peça central o edifício existente, propondo uma linguagem inovadora. O complexo é cercado por um parque que reinterpreta as paisagens do Qatar, apenas composto por plantas e árvores locaiso qual conta a história do Qatar e o modo como o seu povo viveu e conseguiu sobreviver num ambiente totalmente inóspito. A Adega projetada por João Albano Fernandes, para Aguada de Cima em Águeda, que integra um museu automóvel particular, numa área rural e agrícola, estabelece uma nova organização topográfica, definindo-se como elemento de referência na paisagem. A organização estabelece-se a partir de três volumes, intersetados num mesmo ponto, sendo este a rótula de ligação. Esses volumes formulam uma dialética formal, cujo pressuposto é o sentido de unidade. Nuno Montenegro apresenta dois projetos: Em Beja, a Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico, merece destaque. O edifício com aproximadamente 11.600 m² de área construída, está organizado em 5 blocos independentes. Os volumes estão parcialmente enterrados, estabelecendo uma relação com a topografia. Mas, nem só do exterior vive o edifício. O interior apresenta uma série de espacialidades que, em conjunto com variados pormenores plásticos - diferente altura das portas, vãos por repetição e figuras humanas, desenhadas nos planos, provocam uma intriga que não tem leitura imediata, mas que objetiva uma intenção. Como diz o próprio autor “o edifício oferece diversas formulações em trajetos imaginários. Interrogações que deixarei apontadas, mas às quais não responderei, porque a resposta faz parte do processo.” Para o concurso do projeto do Centro Internacional de Convenções da Cidade de Madrid (CICCM), no qual foi classificado em segundo lugar, projeta um salão urbano de expressão monumental, onde pretende, como diz o autor, uma “materialização urbana num espaço onde as paredes e tetos estão ausentes e dão origem a planos que cruzam o espaço sem aparente controlo espacial. (…) exemplo de uma arquitetura criada (…) puramente centrada na cidade e nas pessoas.” Cristina Veríssimo e Diogo Burnay, em parceria com Tiago Filipe Santos, reformulam formal e espacialmente a antiga estação de caminho-de-ferro de Mora, para ali instalar uma nova funcionalidade: o Museu do Megalitismo. Pretende-se incrementar a oferta cultural nacional, dada a relevância museológica e patrimonial dos achados arqueológicos referentes ao período do megalítico. E, como tal, que o edifício seja de referência. Há a intenção objetiva de somar os tempos, onde o antigo e o novo procuram a história. Quatro edifícios, dois existentes a que se somam dois novos, são ligados por uma galeria comum e formam um conjunto, onde é desenvolvido um vasto programa. Esse vasto programa proporciona uma intriga espacial, da qual os autores tiraram partido. Para os autores “pretende-se estabelecer uma relação entre a exploração do espaço expositivo e a exploração do território onde se encontram monumentos típicos do período megalítico – os dolmens e as antas. O espaço expositivo proporciona assim uma experiência espacial, de aprendizagem e conhecimento, do período do megalítico”. Nos edifícios existentes recorreu-se aos materiais e técnicas construtivas compatíveis com a construção tradicional original. Nos edifícios novos os materiais utilizados assumem uma linguagem contemporânea.

 

Nowadays the strength and dynamism that cities concentrate in their territory, both by the number of individuals and by the number of institutions that are located in it, is something to be emphasized. Both individuals and institutions, by the way they occupy and use space, are transforming agents of space. The development and increase of urban spaces presuppose the emergence of new institutions and consequently new actors, which contribute in a redundant way to the diversity of experiences that urban spaces concentrate. Urban development creates new images to be sold in an increasingly global marketplace, while promoting spatial rearrangements to readjust them to new local needs. Culture as a tool for strategic planning and urban marketing uses iconic cultural buildings to initiate promotion and renovation processes. Therefore, we selected projects that, due to their quality and vitality, allow us to perceive phenomena inherent to the current cultural dynamics. There is no doubt that they appear as transformative works of the territory and integrate plural discourses in the areas where they are inserted. Chevalier and Morales atelier designs the House of Literature for the Wesley Temple, in Quebec, a neo-Gothic and iconic building. To this building is attached a new volume, no less symbolic, keeping the full breadth of its original space. A new dialectic is proposed, referring us to the 21st century, era of new social networks. Refering the 21st century, Jean Nouvel brings us an immersive and experiential building - the Qatar National Museum. Having the Palace of Sheikh Abdullah Bin Jassim Al Thani as departure point, the new museum references this existing building as its centrepiece, proposing innovative language. The complex is surrounded by a park that reinterprets the landscapes of Qatar, consisting only of local plants and trees, which tells the story of Qatar and how its people lived and managed to survive in a totally inhospitable environment. The wine cellar designed by João Albano Fernandes, for Aguada de Cima in Águeda, which integrates a private automobile museum, in a rural and agricultural area, establishes a new topographic organization, defining itself as a reference element in the landscape. The organization is established from three volumes, intersected at the same point, which is the linkage. These volumes verbalize a formal dialectic, which presupposes the sense of unity. Nuno Montenegro presents two projects: In Beja, the School of Technology and Management of the Polytechnic Institute deserves mention. The building with approximately 11,600 m² of built area, is organized in 5 independent blocks. The volumes are partially buried, establishing a relationship with the topography. But the building doesn’t live only of its exterior. The interior presents a series of spatialities that, together with various plastic details - different door heights, repetitive spans by repetition and human figures, drawn on plans, provoke an intrigue that has no immediate reading, but which aims an intention. As the author says “the building offers several formulations in imaginary paths. Interrogations that I will point out, but I won’t answer, because the answer is part of the process.” For the contest of the project of the International Convention Center of the City of Madrid (CICCM), where he gets classified in second place, Nuno Montenegro designs an urban hall of monumental expression, where he intends an “urban materialization in a space where walls and ceilings are absent and give rise to plans crossing space, without apparent spatial control. ... An example of an architecture created... Purely centred on the city and the people.” Cristina Veríssimo and Diogo Burnay, in partnership with Tiago Filipe Santos, reformulate formally and spatially the old railway station of Mora, to install a new functionality there: The Museum of Megalithism. It is intended to increase the national cultural offer, given the museological and heritage relevance of archaeological finds, referring to the megalithic period. And, as such, let the building be of reference. There is the objective intention of gathering the eras, where the old and the new seek history. Four buildings, two existing and two new ones added, are linked by a common gallery and form an ensemble, where a vast program is developed. This vast program provides a spatial intrigue, which the authors took advantage of. For the authors “it is intended to establish a relationship between the exploration of the exhibition space and the exploration of the territory, where are included typical monuments of the megalithic period such as the dolmens. The exhibition space thus provides a spatial, learning and knowledge experiences of the megalithic period.” The existing buildings used materials and construction techniques compatible with the original traditional construction. In new buildings the materials used assume a contemporary language.


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Set 2019

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