arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves |victneves@sapo.pt

(Trans) Cultura

Trans - do latim trans, prefixo que significa “além de”, “para além de”, “em troca de”, “através” Houve um período, no século passado, onde a sofisticação das cidades, o seu desenvolvimento e o seu poderio económico se mediam pela quantidade e dimensão dos equipamentos culturais - dos museus, sobretudo, e, mais ainda, dos de arte contemporânea. Para isso contratavam-se ou convidavam-se algumas “estrelas” da arquitetura para desenvolver os projetos. A arquitetura e a ideia da Cultura com letra grande passaram a estar associadas entre si e, como sempre aconteceu no passado, ligadas à exibição do poder económico e político. Isso aconteceu em todas as capitais europeias e Lisboa não fugiu à regra, com o CCB, por exemplo. Exemplo que se replicou a todo o território desde Bragança ao Algarve. Os equipamentos culturais eram usados como promoção das cidades (e das suas governanças) e para tentar criar uma nova imagem das cidades, em alguns casos associada a operações de renovação urbana. A cultura era, foi, uma ferramenta de marketing e os edifícios ligados à cultura foram frequentemente usados como elementos que desencadeavam ações de renovação e reordenamento urbanos. Hoje vivemos uma situação ligeiramente diferente: A cultura não se sofisticou. Alargou-se. Atinge muito mais pessoas. E tornou-se num fator lúdico que mede não a sofisticação das sociedades, mas o grau de democratização da cultura, da sua abrangência. Os programas dos equipamentos culturais diversificaram-se muitíssimo. Hoje projeta-se e constrói-se não apenas museus de arte, mas todo o tipo de museus, casas de cultura, centros de interpretação, mediatecas, bibliotecas, infotecas, casas museu, campos arqueológicos. Mas mais do que isso, a cultura foi-se intrometendo noutros programas funcionais da arquitetura contemporânea, que antes pouco ou nada tinham de cultura. As adegas com roteiro cultural, os hotéis com espaços culturais, os mercados com feiras de livros ou exposições de arqueologia, os cafés que passaram a cafés/livraria, são disso exemplo. Mas, não só: hoje em dia uma escola, um centro de convecções, uma igreja podem também alojar atividades culturais. A arquitetura passou a adotar programas que vão ALÉM DE, PARA ALÉM DE. São programas que ultrapassam os modelos habituais, prevalecentes dos equipamentos públicos típicos. São programas “TRANS” que podem ser também “intra”, que em alguns casos coincidem com uma certa renovação de linguagens e de gerações de arquitetos. O que é refrescante. Qual a razão deste fenómeno? Porque os novos meios tecnológicos da imagem digital, animada, do som e dos efeitos especiais, as tecnologias touch e outras, que permitem uma plena interação com o espectador, transformaram os espaços de cultura em espaços de diversão e de entretenimento. A cultura tornou-se lúdica. Mas, também porque a arquitetura, ela própria e sobretudo aquela que tem um valor institucional, é, em qualquer circunstância, uma marca cultural indelével na nossa sociedade contemporânea.


Trans Latin trans, prefix meaning “beyond”, “in exchange for”, “through” There was a period in the last century where the sophistication of cities, their development and their economic power were measured by the quantity and size of cultural facilities - museums, especially, and even more, those of contemporary art. For this, some “stars” of architecture were hired or invited to develop the projects. Architecture and the idea of culture with large letters became associated with each other and, as has always happened in the past, linked to the display of economic and political power. This has happened in all European capitals and Lisbon has not escaped the rule, with the CCB, for example. Example that has been replicated throughout the territory, from Bragança to Algarve. Cultural facilities were used to promote cities (and their governance) and to create a new image of cities, in some cases associated with urban renewal operations. Culture was a marketing tool, and buildings linked to culture were often used as elements that triggered urban renewal and reorganization actions. Today we live in a slightly different situation: The culture has not more sophisticated. It widened. Reaches many more people. And it has become a playful factor that measures not the sophistication of societies but the degree of democratization of culture, of its coverage. The cultural equipment programs have diversified enormously. Today we design and build not only art museums, but all kinds of museums, cultural houses, interpretation centers, media libraries, info libraries, houses- museum, archaeological fields. But more than that, culture was intruding on other functional programs of contemporary architecture, which had little or no culture before. The wine cellars with cultural itinerary, the hotels with cultural spaces, the markets with book fairs or archaeological exhibitions, the cafes that turned into cafes / bookstore are examples. But not only: nowadays a school, a convention center, a church can also host cultural activities. Architecture has adopted programs that go, BEYOND. These are programs that go beyond the usual models, prevalent of typical public facilities. These are “TRANS” programs that can also be “intra”, which in some cases coincide with a certain renewal of languages and generations of architects. Which is refreshing. What is the reason for this phenomenon? Because the new technological means of digital, animated image, sound and special effects, touch and other technologies that allow full interaction with the viewer have transformed the spaces of culture into spaces of fun and entertainment. The culture has become playful. But also, because architecture, and especially that which has an institutional value, is in any case an indelible cultural mark, in our contemporary society.

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Set 2019

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