arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Victor Neves

3 REFLEXÕES NO FEMININO

CÚlia Gomes, Helena Botelho e Marta Thorne

Os estereótipos de género estão presentes em muitos aspetos da arquitetura. Isto ultrapassa questões de ordem sociocultural. Às mesmas questões as três arquitetas são unânimes em afirmar que a prática profissional no feminino deveria ter mais protagonismo. Nas Universidades há mais alunas do que alunos, questão transversal a outras profissões. Hoje Há muitas mulheres na profissão, seja em coletivos, duplas ou individualmente. O diagnóstico do problema está determinado nestas respostas.

(restante entrevista na edição papel)

arqa: A arqa retoma, neste número, o tema da arquitetura no feminino. Passaram já 14 anos desde a publicação do numero 23 da arqa, dedicado exclusivamente a arquitetas. O que acha que pode ter mudado desde então, sabendo que se tem assistido a uma feminização crescente na profissão de arquiteto pelo menos em Portugal?

CÉLIA GOMES Julgo que a grande mudança seja a visibilidade que este tema tem atualmente. Mas se o tema existe é porque infelizmente ainda muito há por fazer. Se recuarmos até aos anos 90, as faculdades de arquitetura em Portugal já tinham o mesmo número (ou aproximado) de alunas e alunos. Mas a prática profissional e a realidade em atelier é bem diferente, a figura masculina continua nos dias de hoje a prevalecer. A pergunta que se coloca é onde estão estas mulheres que se formaram em arquitetura. A Ordem dos Arquitetos deveria fazer um inquérito sério à profissão onde esta questão fosse também esclarecedora.

HELENA BOTELHO Acho que em 14 anos mudou muita coisa, mas ainda há muito trabalho a fazer nesta área.

Quando me formei, em 1993, quase todos queríamos ter um atelier de autor, numa primeira fase trabalhar com os arquitetos mestres, fazer da experiência nos ateliers um prolongamento do conhecimento adquirido na Escola.

Existiam poucos ateliers em Lisboa liderados por mulheres. Tive a sorte de trabalhar com ótimos arquitetos: o Pedro Vieira de Almeida, o Gonçalo Byrne, os Aires Mateus. Todos homens. Penso que não existiam muitos ateliers de autor liderados por mulheres, mas já começavam a aparecer arquitetas de referência em Portugal, como por exemplo, a Inês Lobo que foi minha professora e que me marcou muito nos primeiros anos da profissão, também por ser mulher, obviamente.

Hoje em dia constroem-se carreiras numa perspetiva completamente nova. Passámos por uma crise bastante grande e muita gente teve que fazer escolhas. Muitos saíram do país em busca de trabalho. Surgiram as duplas e os coletivos, como resposta a uma necessidade de conseguir ter mais projetos, unindo esforços. Aí as mulheres começaram a aparecer no panorama português, com maior destaque, embora poucas arriscassem numa carreira a solo.

Atualmente, existem mais mulheres nas Escolas de Arquitetura e nos ateliers e as saídas profissionais são mais variadas, mas é certo que ainda se sentem algumas diferenças na forma como a sociedade olha para uma profissão que esteve tempo demais conotada com uma prática mais masculina, não só em Portugal mas também no resto do mundo.

MARTA THORNE Podemos ver mudanças positivas em termos de números de mulheres estudantes, mulheres na prática da arquitetura e mulheres com papéis mais relevantes nos ateliers, no meio académico e nas empresas. Na maioria das escolas de arquitetura europeias e norte-americanas as alunas são mais de 50% do total. No entanto, outras profissões, como Direito e Medicina, deram passos mais significativos em direção à igualdade de género e ao reconhecimento de talentos, mais do que a arquitetura. Este facto é especialmente perturbador porque a arquitetura parece orgulhar-se de ser uma profissão inovadora e relacionada com a cultura. Ainda hoje ainda vemos muitas mulheres que abandonam a profissão. Ainda existe uma disparidade significativa nos salários de mulheres e homens, com o mesmo trabalho e com as mesmas qualificações.

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Jun 2019

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