arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Design

por: Carla Carbone

DESIGN EM DEBATE

HELLA JONGERIUS

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Se há designer, no feminino, que mais representou a inovação, a reflexão e debate sobre o design, numa perspetiva sempre crítica do fenómeno, essa designer foi, e é, a holandesa Hella Jongerius.

Tendo participado, primeiro, num grupo irreverente e vanguardista, como o foi a Droog Design, cedo esta designer nos habituou, por meio das suas diferentes peças, a introduzir-nos num debate semiótico sobre os objetos presentes no nosso quotidiano. Uma das peças mais emblemáticas da designer são as peças em cristal, Candle Holder, de 2001, curiosamente desenvolvidas na Atlantis, e que evidenciam uma necessidade da cultura material, nos últimos vinte anos, de introduzir, nos objetos um cunho pessoal, e personalizado, como forma de contrariar a imposição racionalista e redutora, ditada pela máquina e pela industrialização, mais preocupada em responder a ditames de mercado, do que em desenvolver o espírito crítico  e criativo dos seus utilizadores e consumidores.

Embora tenham ocorrido, no século XX, algumas tentativas de humanização dos artefactos, com o advento, sobretudo nas décadas de 50, 60 e 70 de uma certa organicidade nas soluções formais e projetuais, a verdade é que o modernismo, na sua génese redutora e normalizadora, da década de 30, continuou a marcar a maior parte das produções, reprimindo, muitas vezes os apelos dos designers e teóricos, como Venturi, ou os grupos radicais italianos, como Archizoom, ou até mais tarde Sottsass,: de que o design não podia estar mais virado de costas para a vida, para a diversidade, para a cultura, para o quotidiano das pessoas, para as suas necessidades identitárias, para a história das regiões, para a comunidade, para os aspetos sociais, ambientais, para o autóctone. E todas estas dimensões têm sido contempladas na obra de Jongerius. A peça Handle Holder fomenta, não só, a produção local, como evidencia (e potencia), no utilizador/fruidor, a escolha, de entre um grupo de peças que são diferentes entre si, da peça com a qual se identifica mais. Ora este é um aspeto de elevadíssima importância, no sentido em que não anula a individualidade da pessoa, antes pelo contrário a potencia.  Esta consciência da diversidade é extremamente importante na obra de Jongerius, porque incorpora, inclui, ao invés de excluir, rejeitar a diferença, como era comum da aceção modernista. Contribuindo assim para a ideia que Jongerius admite nas suas peças, as várias contaminações culturais, num olhar observador e sério, permitindo que o mundo entre na sua obra, assim como os diferentes olhares das pessoas que pertencem a esse mundo, um mundo composto por diferentes culturas, em que não se permita hierarquizar essas culturas, nem da dita baixa cultura à alta cultura, ou como diria John Cage, quando falava da música, não há musica má. “Toda a música é boa”; a ideia é poder criar uma condição agregadora e artística que permita incluir no mundo tudo e todos, num ato de grande generosidade, filantropo, sem exclusões. Ao contrário da misantropia defendida eternamente pelos princípios racionalistas. (…)

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Jun 2019

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