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Opinião

por: Luís Manuel Pereira - Diretor Executivo arqa

FEMINAE: ARQUITETURA COMO NARRATIVA QUE DEFINE GÉNERO | FEMINAE: ARCHITECTURE AS NARRATIVE THAT DEFINES GENDER

 

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Ana Colling, no livro A Construção Histórica do Feminino e do Masculino, refere que a história das mulheres, é uma história recente como disciplina científica e está estritamente ligada ao surgimento do conceito de género.  A afirmação da narrativa feminina no universo da cultura foi até há pouco tempo feita com dificuldades e esforços suplementares. Até aí, a alusão ao papel da mulher passava por atividades “genuinamente femininas”. Profissões que evidenciavam status, estavam reservadas aos homens. O mesmo se passa na história das mulheres no universo da  profissão da arquitetura em que   as referências ao reconhecimento do mérito na profissão, aquilo a que muitos chamam “arquitetura estrela”, eram dedicadas aos homens. Lina Bo Bardi foi sem dúvida uma das primeiras arquitetas a romper o padrão e ter o seu prestígio reconhecido pelo público e, sobretudo, entre os seus pares.

Em Portugal, desde a primeira arquiteta, Maria José Estanco, a presença e o reconhecimento das mulheres no campo da arquitetura, foi deficitário e, só agora, começa a ser desbravado.

Neste número, dedicado à praxis no feminino, enquadramos poéticas inseridas em discursos indistintos de género. Diríamos mais, obras impregnadas de um profissionalismo maior, que retratam percursos de prestígio.

Teresa Nunes da Ponte, no antigo Baluarte do Cais, posteriormente Quartel do 11, um conjunto de grande valor patrimonial de 1640, projeta a Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, recorrendo ao restauro, reabilitação e ampliação, com o objetivo de respeitar o existente e introduzir uma linguagem marcadamente contemporânea. Projetar em edifícios históricos, nem sempre é fácil. há que saber conjugar saberes intemporais, e T N P consegue-o com a introdução de novos materiais, trazendo uma harmonia formal e de matéria na malha urbana de Setúbal.

Por sua vez Célia Gomes, partindo também de uma preexistência, mais recente (anos 70 do século passado), faz a refiguração dos antigos pavilhões e constrói dois novos edifícios. Assim, formaliza um novo complexo escolar, organizando uma estrutura espacial de imediata leitura, facilitando a sua dimensão urbana.

A moradia unifamiliar, no Monte dos Saltos, de Olga Feio, aproveita inteligentemente a pendente existente em direção ao Rio Ave, para se implantar. Um programa doméstico, típico de uma casa recorrente, é concretizado num só piso, distribuído em dois corpos que hierarquizam as funções e que respeitam na íntegra o caráter paisagístico do lugar.

O atelier PUSHAK apresenta uma proposta espacial, executada a partir das relações emocionais. Trabalham um programa pouco comum - um crematório - criando interações funcionais de acordo com o processo do cerimonial. Surge como peça isolada no território definido por uma materialidade formal e plástica, que se destaca na paisagem, não evidenciando  a sua função.

O edifício JN, de Ana Leandro, implantado em dois lotes, que configuram uma individualidade, mas que no conjunto procuram uma unidade, tanto espacial como formal, onde a verticalidade é rasgada.

Estamos perante uma obra que se destaca no território assumindo uma contemporaneidade, por meio de sugestões plásticas dos materiais, onde a verticalidade é rasgada por uma série de lâminas horizontais, rompidas pelos planos em vidro.

Romina Canna reinterpreta o papel da biblioteca contemporânea num edifício histórico. Recorre a cores, texturas, elementos tipográficos e mobiliário personalizado para criar espaços, e, através destes, microcosmos culturais.

Por fim Joana Vasconcelos, através de uma interessante entrevista, contextualiza o seu percurso e, através da sua leitura e visualização, reconhecemos porque é neste momento a artista plástica portuguesa mais conceituada, dentro e fora de portas. Apercebemo-nos da sua cumplicidade e crítica à sociedade contemporânea, no seu processo criativo, onde as variadas dicotomias estão presentes e que resultam em elementos de significação, no universo da arte mundial.

Ana Colling, in her book A Construção Histórica do Feminino e do Masculino, mentions that women’s is history is recent as a scientific discipline and is strictly related to the emergence of the concept of gender. The affirmation of the female narrative in the universe of culture was, until recently, constructed with difficulties and additional efforts. Until then, the allusion to the woman’s role went through genuinely feminine activities. Careers that evidenced status were reserved for men. The same is true in the history of women in the universe of architecture, where references to the recognition of merit in the profession, what many call “star architecture”, were dedicated to men. Lina Bo Bardi, was undoubtedly one of the first architects to break the pattern and have her prestige recognized by the public and especially among her peers.

In Portugal, since the first architect, Maria José Estanco, the presence and recognition of women in architecture, has been deficient, and only now, begins to be broken.

In this arqa issue, dedicated to praxis in the feminine, we fit poetic inserts in indistinct gender discourses. We would say more, works imbued with a greater professionalism, which show prestige paths.

Teresa Nunes da Ponte, at the old Baluarte do Cais, later Hedquarter, a set of great patrimonial value from 1640, designs the Tourism’s School of Setúbal, using the renovation, rehabilitation and expansion, in order to respect the existing and introduces a sharply contemporary language. Designing in historic buildings is not always easy. It is necessary to conciliate timeless knowledge and T N P achieves it, with the introduction of new materials, bringing a formal and material harmony in Setúbal’s urban fabric of.

On the other hand, Célia Gomes, starting from a more recent pre-existence (70’s of the previous century), restored the old pavilions and built two new buildings. Therefore, she formalizes a new school complex, organizing a spatial structure of immediate reading, facilitating its urban dimension.

In the unifamily house, at Monte dos Saltos, Olga Feio cleverly takes advantage of the existing slope towards Rio Ave. A domestic program, typical of a house, is carried out on a single floor, distributed in two bodies that rank the functions and that respect in full the landscape character.

The PUSHAK atelier presents a spatial proposal based on emotional relations. They work on an unusual program - a crematorium - creating functional interactions according to the ceremonial process. It appears as an isolated piece in the territory, defined by a formal and plastic materiality, that stands out in the landscape, not showing its function.

The JN building, of Ana Leandro, implanted in two lots, that generate an individuality, but that, together, seek unity, both spatial and formal, where the verticality is torn.

We are facing a work that stands out in the territory assuming a contemporaneity, through materials plastic suggestions, where the verticality is torn by a series of horizontal sheets, fragmented by the plans in glass.

Romina Canna, reinterprets the role of the contemporary library, in a historic building. She uses colors, textures, typographic elements and custom furniture to create spaces, and through them, cultural microcosms.

Finally, through an interesting interview, Joana Vasconcelos contextualizes her journey, and through her reading and visualization, we recognize why she is at the moment the most respected Portuguese artist in and outdoors. We are aware of its complicity and criticism of contemporary society in its creative process, where the various dichotomies are present and result in elements of connotation, in the world of world art.

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Jun 2019

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Horácio Manuel Pereira Bonifácio, lisBoa, 1951. licenciado eM História, Pela faculdade de letras da universidade de lisBoa e doutorado eM História da arquitectura, Pela faculdade de arquitectura da utl, coM uMa tese soBre os arquitectos Portugueses da 1º Metade do séc. Xviii. docente da faculdade de arquitectura da utl 1978/ 2011. desde 1993 é Professor catedrático, da área de teoria e História da arquitectura, na faculdade de arquitectura e artes da universidade lusíada de lisBoa. é director da Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de LisBoa, desde 2012. investigador/ coordenador no centro de investigação eM território, arquitectura e design (citad), da universidade lusíada. coordenando uM gruPo de investigação na área de teoria e História. vários artigos PuBlicados na área da História da arquitectura, Portuguesa dos séculos Xvi, Xvii e Xviii, PrioritariaMente teMática do Barroco/arquitectos da éPoca.

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