arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Victor Neves

(arq) FEMINAE

 

Os estereótipos de género encontram-se presentes em muitas profissões e refletem modos diversos de posicionamento social e cultural.

Na Arte e no Design contemporâneos é fácil encontrar, em Portugal, um número significativo de mulheres ativas e com obra relevante, nessas áreas. Na Arte, para além do caso excecional e bastante mediatizado de Joana Vasconcelos, podemos mencionar um número significativo de artistas mulheres: Paula Rego, Graça Morais, Carolina Piteira, Ana Vieira, Helena Almeida, Paula Rego, Lourdes Castro, Sofia Leitão, Teresa Braula, Leonor Antunes, Filipa César, Joana Rêgo, Inês Botelho, Alice Geirinhas. Alguns destes nomes tiveram obras suas publicadas na arqa.

Na área do Design, podemos também mencionar um conjunto de nomes como Bárbara Says, Catarina Sobral, Inês Nepomuceno, Mariana Baldaia, Sónia Matos, Vera Velez, Teresa Nunes, Madalena Matoso, Vera Baltrão, entre outras. E apesar de também aqui, na área do Design, as mulheres invocarem uma pretensa prevalência masculina, é notório que existe um grande número de mulheres em atividade, nomeadamente no design de interiores.

Na arquitetura, confrontamo-nos com uma situação um pouco diversa das anteriores. Apesar de haver um número crescente de arquitetas inscritas na Ordem e um visível e significativo aumento de alunas nos cursos de arquitetura, não existem muitos ateliers de autor liderados por mulheres e são poucos os casos de arquitetas que se destacam individualmente no contexto da arquitetura portuguesa atual e que se possam considerar como referências. Qual a razão? Não é fácil avançar com uma explicação plausível. Muito provavelmente há não apenas uma, mas várias, explicações para este fenómeno. Claro que podemos desde logo avançar com os argumentos habituais, mais políticos, de uma pretensa atitude cultural que admite e fomenta ainda a desigualdade de oportunidades das mulheres no trabalho, no acesso a cargos políticos de chefia, etc. etc. E ainda procurar a explicação na dupla natureza feminina de trabalhadoras e mães que inibe as mulheres de se dedicarem a tempo inteiro ao seu trabalho e à sua profissão, neste caso de arquitetas.

Várias hipóteses têm sido avançadas para a solução destas assimetrias e em alguns setores tem-se mesmo avançado com a necessidade da criação de quotas. No Parlamento, na composição dos governos, nas direções partidárias, nas administrações das grandes empresas, esta solução deixa sempre a ideia de ser artificial e em muitos casos é criticada pelas próprias mulheres. Desde logo polémica, esta solução não se tem revelado crível, muito embora Célia Gomes, uma das entrevistadas deste número afirme acreditar na implementação de um sistema desse tipo.

Ainda na área da arquitetura portuguesa e ainda na tentativa de compreender a falta de referências femininas nessa área, a razão mais plausível para essa situação poderá ter a ver como facto de a arquitetura ser uma atividade que requer hoje em dia o envolvimento de várias áreas, de equipas multidisciplinares e meios e logísticas de grande dimensão e investimento, maiores comparativamente à atividade artística ou ao Design . Martha Thorne, outra das entrevistadas neste número da arqa, refere-se a este problema, quando afirma o seguinte:” A arquitetura é uma profissão que tem contacto próximo com os setores de engenharia, construção, imobiliária e bancário. Todos estes são fortemente dominados por homens e parecem resistir à mudança “. E acrescenta “As mulheres na arquitetura não só têm de travar a ‘batalha’ no escritório, como também fora dele”.

A arqa decidiu lançar uma reflexão sobre este tema, e dedicar este seu número 134 exclusivamente a mulheres. Na realidade, a arqa já tinha abordado este tema antes, em pelo menos duas ocasiões, nomeadamente no número 23 e também no número duplo 80-81, num artigo de Jorge Figueira que abordava o evento “Mulheres na arquitetura”, realizado na Universidade de Coimbra em 2010.

Mas neste novo número, o objetivo é, não só mostrar obras de arquitetas, e reconhecer a real qualidade do seu trabalho, mas também procurar respostas para as incógnitas que rodeiam este tema. A surpresa veio quando algumas das mulheres que agora convidámos - enquanto projetistas ou enquanto críticas – recusarem esse convite. É escusado detalhar as razões invocadas para as recusas, não só porque elas são legitimas, mas também porque são diferentes, caso a caso, em determinados pormenores. Mas na maioria dos casos, as convidadas afirmaram a sua plena disponibilidade em participar num outro número qualquer da revista, mas não num número dedicado apenas a mulheres arquitetas. E, assim, nasceu uma outra incógnita …

Gender stereotypes are present in many professions and reflect different ways of social and cultural positioning

In Art and Contemporary Design is easy to find, in Portugal, a significant number of women active and with relevant work in these areas. In Art, apart the exceptional and very mediatized case of Joana Vasconcellos, we can cite the names of Carolina Piteira, Ana Vieira, Helena Almeida, Paula Rego, Lourdes Castro, Sofia Leitão, Teresa Braula, Leonor Antunes, Filipa César, Joana Rêgo , Inês Botelho and Alice Geirinhas. Some of them have been published in arqa.

In the area of ​​Design, we can also mention several names: Catarina Sobral, Inês Nepomuceno, Mariana Baldaia, Sónia Matos Vera Veloz, Teresa Nunes, Madalena Matoso, Vera Baltrão among others. And despite the fact that women designers also invoke a pretense male prevalence in the area of ​​Design, there are a large number of women in the business, particularly in interior design.

In architecture, we are confronted with a situation a little different from the previous ones. Although there is a growing number of female architects registered in the Architecture College, and a noticeable and significant increase of female students in architectural courses, there are not many cases of women that stand out in the context of portuguese architecture. What is the reason? It is not easy to come up with a plausible explanation. Most probably there is not only one, but a few, explanations for this phenomenon. Of course, we can come up with the usual, more political, arguments of a pretense cultural attitude that admits and fosters  the inequality of women’s opportunities at work, access to leadership positions, etc. And even find the explanation in the dual feminine nature of working women and mothers, that inhibits the women to dedicate themselves full time to their work and to their profession, in this case of architects.

Several hypotheses have been advanced to solve these asymmetries and in some sectors a quota creation has even been advanced. In Parliament, in the composition of governments, in the party leadership, in the administrations of large corporations, this solution always leaves the idea of ​​being artificial and in many cases is criticized by women themselves. This controversy has not proved credible, even though Célia Gomes, one of the interviewees of this arqa issue, claims to believe in the implementation of such a system.

Still in the area of ​​portuguese architecture and still trying to understand the lack of female references in this area, the most plausible reason for this situation may be connected to the fact that architecture is an activity that requires, today, the involvement of various fields, of multidisciplinary teams and means and logistic of great dimension and investment, even greater compared to the artistic activity or the Design. Martha Thorne, another interviewee in this issue of arqa, refers to this problem when she states the following:  Architecture is a profession that comes into close contact with engineering, construction, real estate, and banking industries.  All of these are heavily male-dominated and seem to resist change. And add: Women in architecture not only have to “fight the battle” at the office but also outside in many fields. 

arqa magazine decided to launch a reflection on this subject, and dedicate this number 134 exclusively to women. In fact, arqa had already addressed this issue before, at least on two occasions, namely in the issue nº 23 and also in the double issue nº80/81 analyzed the meeting “women in Architecture” held at Coimbra University, in 2010. But in this new issue, the aim is not only to show works of architects, women, and their quality ,but also look for answers to the unknowns that surround this theme. The surprise came when some of the women we have now invited - as designers or as critics - have declined this invitation. It is unnecessary to detail the reasons given for refusals, not only because they are legitimate, but also because they are different, on a case-by-case basis, in certain details. But in most cases, those invited architects, affirmed their full willingness to participate in any other issue of the magazine, but not in a number dedicated only to female architects. And so was born another equation …

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Jun 2019

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