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Opinião

por: Arq|a

ENTRE O MUSEU PROTEIFORME E O MUSEU COLABORATIVO: É TEMPO DE REINVENTAR OS MUSEUS?

CLARA FRAYÃO (ATUALMENTE É TÉCNICA SUPERIOR DA DIREÇÃO-GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL E PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA-GERAL DO ICOM PORTUGAL)

Na mitologia grega, Proteu é um deus marinho com o dom da profecia e a capacidade de mudar de forma perante os seus perseguidores ou aqueles que buscam conhecer o destino. Apenas os homens que ultrapassassem o medo perante as suas assustadoras aparências conseguiriam obter o conhecimento da verdade. As metamorfoses de Proteu inspiram um dos quatro modelos perspetivados pela “Missão Museus para o século XXI”, lançada pelo Ministério da Cultura de França em 2017: o museu proteiforme. Com enfoque na diversidade de coleções, de públicos e de territórios e na evolução dos hábitos sociais, este modelo questiona a capacidade de adaptação e a proatividade dos museus atuais, ao mesmo tempo que evidencia as suas metamorfoses e possibilidades de comunicação. (…)

Invocado sumariamente o plano da reflexão, sem perder de vista a praxis, vale a pena agora interrogar o plano político e lançar o olhar por dois projetos nacionais, recentemente implementados pelos Ministérios da Cultura de Espanha e de França. No primeiro caso, refiro-me ao Plan Museos + Sociales que, na sequência de um diagnóstico, delineou linhas estratégicas e programas a aplicar aos museus espanhóis em torno de cinco modelos museológicos: museu aberto, museu acessível, museu intercultural, museu inclusivo e museu sustentável. Todos pretendem potenciar a função social dos museus perante as novas realidades da sociedade e num contexto de racionalização de recursos. No caso francês, a já referida Mission Musées XXIe siècle envolve de forma muito alargada o setor museológico no debate em torno de uma visão renovada para os museus de França. Além dos já aludidos “museu proteiforme” e “museu colaborativo”, emergiram dois outros modelos - “museu ético e cidadão” e “o museu como ecossistema profissional criativo” – que moldam a perspetivação de programas e de medidas por parte do Ministério da Cultura de França. Em ambos os exemplos, a assunção da mudança de paradigma conceptual do museu da contemporaneidade motivou o lançamento daqueles projetos.

E em Portugal, o que pode ser proposto à tutela do Estado? Se é conhecida a escassez de planeamento estratégico (Filipe e Camacho, 2018) e de adoção de metodologias colaborativas nas políticas públicas, não deixa de ser assinalável, no campo dos museus, o desfasamento entre os planos da reflexão e da prática e o plano da ação política, num contexto em que ainda se derramam sobre o presente as consequências da austeridade orçamental advinda da crise de 2008.

A meu ver, torna-se premente o lançamento de um projeto mobilizador com um envolvimento extensivo de todo o setor museológico português e uma abertura à sociedade, que se baseie num retrato da realidade para perspetivar a próxima década. Uma Missão Museus 2030 que envolva os agentes no terreno com recurso a metodologias da democracia participativa e com estratégias cooperativas da era das redes. Um projeto que desfaça barreiras e afaste o medo daqueles que continuam a não franquear as portas do museu. Em suma, um projeto que promova um museu proteiforme que, ao contrário do mito de Proteu, assuma diferentes formas para desvendar o conhecimento e não para o esconder.

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Dez 2018

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