arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Texto Victor Neves | Fotos Michel Zeca

ENTREVISTA João Luís Carrilho da Graça

arqa Quase todos os projetos que a arqa vai publicar neste número resultaram de concursos internacionais. Ou seja, o atelier João Luis Carrilho da Graça é hoje um atelier com uma projeção internacional e com uma atividade global, digamos. No entanto, e recuando no tempo, recordo-me de um Carrilho da Graça muito jovem, logo após a revolução de abril de 74, intensamente envolvido em acesas discussões sobre o que deveria ser a arquitetura em Portugal e o que deveria ser a profissão de arquiteto. Isto aconteceu na ESBAL, mas também nos congressos da antiga AAP, por exemplo. O que significam hoje para si esses tempos?

João Luis Carrilho da Graça Nessa altura tentava encontrar um ponto de partida para o trabalho que posteriormente fui desenvolvendo. A ESBAL tinha reaberto após o 25 de Abril e durante o período de reabertura, no qual participei e que foi para mim muito interessante, tive sempre essa interrogação sobre a arquitetura e o ensino da arquitetura. Nesse período lembro-me que foram muito importantes para mim os livros do Aldo Rossi. Trabalhava com o arquiteto Artur Pires Martins, com quem fiz projetos em coautoria e por quem tenho muita admiração. O filho, José Sousa Martins, também nosso colega, estudou em Milão com o José Charters [Monteiro]. Os dois foram, não só alunos do Aldo Rossi como, citando uma entrevista do próprio Rossi desse período, os seus mais brilhantes discípulos. Na altura conversava bastante com o José Sousa Martins, que me preparou, inclusivamente, um roteiro para uma viagem a Itália durante as férias da Páscoa do meu último ano de escola, quando eu era aluno de Manuel Tainha. Visitei uma série de edifícios. Lembro-me de discutir com ele a arquitetura do Rossi e pude concluir que o seu trabalho era fulcral naquele momento. E, na minha memória, fica a sensação de que o entusiasmo de Rossi pelo neoclassicismo em Milão é um dos aspetos fundamentais do trabalho que veio a desenvolver. Quase poderíamos interpretá-lo, certamente de uma forma muito redutora, como um arquiteto neoclássico dos nossos tempos, com tudo aquilo que naturalmente se foi aprendendo em todas as áreas e em todos os domínios do conhecimento. (…)

arqa Saltando para as obras mais recentes, desde logo, aquela que ameaça ser uma obra de referência da arquitetura portuguesa do século XXI, pelo menos em Lisboa - o Terminal de Cruzeiros. Para além de tudo o que se já tem dito e escrito, sobre o projeto, parece haver nesta obra um estado de maturação do arquiteto onde se reconhecem linhas de projetos, mas também o universo formal de alguma arte contemporânea, para além de uma atenta leitura do sítio. Será assim?

JLCG Não vou dizer que não. Sobre a questão da maturidade é normal que assim aconteça porque, entretanto, tenho 65 anos. Entendo que é uma obra interessante por razões que ainda não estão totalmente legíveis, porque a relação que o Terminal estabelece com a cidade é para mim o fundamental. E essa relação é mediada pelo parque urbano verde. Desde o princípio a ideia foi que esse parque funcionasse em simultâneo quer para o Terminal de Cruzeiros, quer para a cidade. Aquela zona da cidade não tem zonas verdes e a relação com o rio é interessantíssima. O parque verde pode contribuir para essa relação de uma forma mais direta. Por outro lado, lembro-me de ir aos cafés das gares marítimas antigas de Pardal Monteiro, que estavam abertas ao público independentemente de partirmos num navio ou não, e pensei que seria interessante haver um circuito público mais ou menos dedicado à cidade; uma contrapartida que o Terminal poderia oferecer. O percurso em rampa que chega a uma espécie de loggia da entrada do Terminal – mas também de passagem – onde há um cafezinho, que tem vista para o rio e para a cidade. Continuando a subir até à cobertura do edifício, ainda num circuito que eu sempre imaginei que pudesse ser público, temos uma vista muito intensa e surpreendente sobre o Mar da Palha, Alfama e a cidade antiga. É um sistema público que se sobrepõe a outro com objetivos mais funcionais que se prendem com a entrada e saída de navios, a entrada e saída de passageiros e o cumprimento de todas as questões de fronteiras e de segurança que têm cada vez mais importância.

Gosto de olhar para toda aquela área em transformação com uma série de interações com a cidade. O projeto, entre todos os outros apresentados a concurso, era o mais pequeno – tinha os menores volume e área. Também sempre me pareceu muito interessante reduzir o programa ao mínimo e ter o mínimo possível de áreas climatizadas. Foi isso que se fez. E é isso que permite que o edifício, a partir de certos pontos de vista pareça de grande dimensão e de outros pontos mais discreto. Acho que a sua relação com a cidade – a que se vê do miradouro das Portas do Sol, por exemplo – liga muito bem com o ambiente portuário daquela área, através de uma presença não excessiva. (…)

 

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Set 2018

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