arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Artes

por: David Santos

Edgar Martins

O espaço e a luz1

A consciência espacial destas imagens resulta de uma intensa ou até inebriante iluminação artificial. O modo de afirmação lumínica que aqui se manifesta encontra no observador uma espécie de inevitabilidade sensorial que o conduz invariavelmente ao exercício reflexivo acerca da sua possibilidade real. A ilusão ou a realidade que assim se produz mistura-se com o rigor formal do seu aparato disciplinar. Estas fotografias são pós-humanas, certas no seu estertor e ambiguidade. O seu autor promete romper com a matriz comum da fotografia e afirmar outras vias de expressão e análise.

Na verdade, um fulgurante reconhecimento internacional entre a crítica britânica e nova-iorquina projecta desde já Edgar Martins como um dos nomes emergentes da fotografia contemporânea. Nascido em Évora, em 1977, cedo viajou para Macau (China) onde fez os seus primeiros estudos em Filosofia, desenvolvendo interesse também pela criação literária. Fixou-se pouco depois em Londres, onde se formou na London School of Printing, concluindo ainda o "MA in Photography and Fine Art", no Royal College of Art. Desde os seus primeiros trabalhos que Edgar Martins apresenta um extremo rigor fotográfico, não apenas a nível técnico ou de composição como ainda na escolha dos temas. Essa campanha "arqueológica" em torno de ambíguas referências espaciais culmina no trabalho de Edgar Martins na assunção da imagem fotográfica como exercício de reinvenção total, ainda que subtilmente associado ao real, mantendo ligado o observador, convertendo-o assim numa testemunha privilegiada que vai ao encontro da relação de atracção e repulsa que quase sempre se estabelece com os veradeiros espaços periféricos.

Da análise das várias séries fotográficas expostas ou dos livros publicados nos últimos anos percebemos de imediato o domínio conceptual do artista sobre ambivalência da imagem, e os resultados de surpresa que a iluminação (natural ou artificial) pode projectar sobre a nossa percepção visual. Apesar da diversidade temática do seu trabalho (dos aeroportos à paisagem natural islandesa), Edgar Martins parece preferir as imagens nocturnas ou de interiores, onde aplica uma cuidada iluminação artificial para configurar por fim uma inquietante e tensa atmosfera de verosimilhança. Espaços invisíveis ou quase esquecidos ganham assim protagonismo na meticulosa objectiva do artista.

1 Este texto retoma e amplia um outro da minha autoria, dedicado ao artista Edgar Martins, e publicado no catálogo "BESart - O Presente: Uma Dimensão Infinita", CCB, 2008.

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Mar 2009

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