arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Crítica

por: Pedro Machado Costa

Um Outono em Lisboa

Notas sobre a 4ª Edição da Trienal de Arquitetura de Lisboa

Por muito generosa que seja, por muito que tenha para oferecer, nenhuma exposição é inocente. Muito menos o é, inocente, inofensiva tampouco, uma exposição de arquitetura. A consciência do poder e da capacidade de influência das exposições há muito se encontra implantada nos círculos da disciplina. Elas são, na arquitetura, lugares fundamentais para o desenvolvimento e para o estabelecimento do discurso. Se é verdade que as exposições foram e continuam a ser uma forma de propaganda, mais significativa é a sua efetiva capacidade de influenciar a própria historiografia. A reciprocidade entre exposições, teoria e história abre questões importantes sobre o papel da divulgação da matéria que trata. O modo de expor implica uma interdependência entre arquitetura e comunicação; sendo difícil de distinguir a fronteira entre forma, mensagem e apreensão. Ela comporta uma espécie de anacronismo, onde é possível até o exercício de uma visão revisionista sobre uma matéria que pode estar a ser produzida em simultâneo. Queiramos ou não, essa realidade faz cada vez mais parte do discurso, dando um poder crescente à exposição como matéria de reescrita da teoria e da história. Logo na primeira edição, a Trienal terá tido consciência desse poder, ao ver parte da mostra ganhar contornos de construção identitária, no momento em que a exposição Europa, arquitetura portuguesa em emissão se transforma na representação oficial portuguesa à 7ª Bienal de Arquitetura de São Paulo. Concebida com o propósito de refletir sobre um problema específico, ela torna-se no discurso oficial de um país. A este deslocamento de contexto coincide evidentemente uma transferência do discurso, correndo-se o risco se ser esse o registo que fica para a história. À medida que ganha corpo e perde a candura que é própria dos iniciantes, muitos são os acertos, para que a Trienal atinja o estatuto de fazedor de estado da arte; sendo visível o esforço de internacionalização do evento. O primeiro desses sinais foi a escolha de Beatrice Galilee para dirigir a edição de 2013, que se explica mais pela esperança depositada na sua influência no meio jornalístico especializado, do que propriamente pelo projeto curatorial. Desde aí, assiste-se a apresentações da Trienal em locais como Veneza ou Oslo, e à presença de inúmeros meios de comunicação, jornalistas e críticos estrangeiros. Antes mesmo da abertura pública da presente edição, circulavam textos sobre o evento, em revistas, sites e jornais especializados, mas também em publicações como a Forbes, a Wallpaper ou o The Guardian.

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Dez 2016

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