arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Portugal Premiado

A premiação em arquitetura como barómetro da realidade disciplinar

1. “Ainda é difícil para mim acreditar que sou o vencedor do Prémio Pritzker desde ano, o prestigiante prémio que a The Hyatt Foundation já entregou a alguns dos arquitetos que mais admiro. O objetivo de um prémio de arquitetura é supostamente, acima de tudo, o de promover e celebrar a perfeição. Ainda não fui capaz de atingir a perfeição.” 1 Era assim que em 1992 Siza iniciava o seu discurso de aceitação do primeiro Prémio Pritzker português. Mais do que a humildade interessa aqui destacar a tenacidade, mais do que o reconhecimento do passado a promessa do futuro. É, no limite, esta insatisfação e busca permanentes que fazem Siza, entre outros destacados arquitetos, ganhar importantes prémios internacionais. Um prémio pode ser essencialmente um estímulo e uma oportunidade. Não será por acaso que Siza centrava o seu discurso nos desafios da condição então presente da arquitetura. Mas não deixava de revelar uma visão algo desassombrada da profissão, afirmando que “a vida profissional dos arquitetos é nos dias de hoje afetada não apenas por essas imperfeições [construtivas e materiais], mas também pelas dificuldades e impossibilidades de fazer arquitetura.”2 Estranhamente, são os impedimentos da prática arquitetónica que são convocados neste momento de reconhecimento e celebração internacional do seu percurso. Mas não só. Siza revela-se também como um arquiteto em processo de interrogação. São afinal não as suas certezas mas os seus dilemas, perante o que define como uma situação “in-between”, que trespassam o seu discurso. A indecisão entre as “necessidades da grande maioria das pessoas” e a “atração pelas oportunidade particulares”. A incompatibilidade entre “os estigmas da especialização” profissional e uma disciplina universal. A impossibilidade da “alta-tecnologia” refletida noutra do “conhecimento direto dos artesãos”. A incomunicabilidade entre o ambiente urbano “banal e repetitivo“ e o desenho erudito da arquitetura. A resposta de Siza a esta condição disciplinar e profissional revela-se desconcertante: “Isto está longe de ser uma tarefa modesta: a procura do reencontrar da espontaneidade perdida, do gozo da espontaneidade e da diferença; a competência não inibida e coletiva de encontrar ou modelar o lugar para os episódios urbanos excecionais. Sonho com o momento no qual essa necessidade íntima e coletiva não esteja dependente de um grau em arquitetura.”3 A promessa do ocaso do arquiteto na realização absoluta da arquitetura, ou seja, a “perfeição”. 

 (…)

Dez 2015

Outros artigos em Editorial

Imagem - A CASA NA ERA DAS PANDEMIAS

A CASA NA ERA DAS PANDEMIAS

Diretor, Victor Neves, victneves@sapo.pt Neste tempo de clausura forçada por um vírus homicida, a nossa casa revelou-se muito limitada. Pequena de espaço, pequena de horizontes, pequena para absorver os nossos… 

Jul 2020

Imagem - [NON] URBAN

[NON] URBAN

victneves@sapo.pt NON-URBAN: AS CONTRADIÇÕES DA URBANIDADE NON- urbano significa a negação do urbano. E urbano significa aquilo que é próprio da cidade, mas também pode significar, indiretamente, um espaço que… 

Mar 2020

Arquivo de Editorial