arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Itinerâncias

por: Luís Santiago Baptista

Duas publicações sobre lugares e migrações

A Green Archipelago de Ungers e Koolhaas e Drawing Ambience sobre Boyarsky

A história da arquitetura faz-se do cruzamento de contextos polarizadores com migrações de ideias e autores. A fixidez dos lugares confronta-se com a circulação de teorias e arquitetos. A Renascença será um exemplo paradigmático desta realidade. Mas a verdade é que com a modernidade essas relações se intensificaram e aceleraram, assumindo uma dimensão estruturalmente internacional. Veja-se os CIAM, no período entre guerras, com a emergência de uma rede internacional de arquitetos modernos que se manifestou, de diversas formas, em cidades específicas como Paris, Berlim, Dessau, Estugarda, Frankfurt, Roterdão, Viena, Moscovo, etc. Por outro lado, sabemos como as mudanças políticas na Europa nos anos 30 levou à emigração de alguns mestres modernos, por exemplo, Ernst May e Hannes Mayer para a União Soviética ou, num sentido mais definitivo, Mies e Gropius para os Estados Unidos. A geografia disciplinar moderna alterava-se radicalmente, reconfigurando-se institucionalmente na Europa e expandindo-se em novas ramificações por outros continentes. Se, nos anos 50, o Team X redefine a geografia dos CIAM, com Londres e Amesterdão a assumirem um novo protagonismo, os anos 60 anunciam um mapa disciplinar mais aberto, com a explosão de contextos específicos como Londres, Paris, Nova Iorque, Tóquio, Viena, Veneza, Florença, Porto, entre outros. É, de facto, impossível perceber a modernidade arquitectónica sem uma consideração do papel dos contextos físicos e institucionais específicos e dos fluxos de ideias e autores que os atravessaram, num panorama de difusão marcadamente internacional. Esta cartografia disciplinar até aos anos 70, apesar de alvo de intensa investigação académica actual, como se pode comprovar pela última Bienal de Veneza, está relativamente assimilada, quanto aos contextos e personalidades envolvidas. Porém, as mudanças e transformações disciplinares posteriores permanecem ainda numa certa obscuridade. É verdade que a história dos tempos próximos é sempre difícil e complexa, senão mesmo paradoxal. Mas falta-nos não só a informação documental mas igualmente o aparelho conceptual para percebermos as grandes transformações que a disciplina sofreu nas últimas décadas. Torna-se significativa a ausência de histórias autorais da arquitetura contemporânea, como tivemos anteriormente a de Giedion, Zevi, Benévolo, Tafuri ou Frampton. Estamos destinados à lógica dispersa e fragmentária da antologia de textos de múltiplos autores. Por outro lado, não temos uma genealogia disciplinar do desaparecimento das tendências arquitetónicas, agora reduzidas ao nome próprio dos arquitetos estrela, nem uma compreensão das mudanças conceptuais e operativas trazidas, por exemplo, com a introdução dos meios digitais na arquitetura. Falta-nos ainda uma cartografia disciplinar de lugares e movimentos, de instituições e personalidades, para a arquitetura contemporânea, apesar de alguns contributos fundamentais como o de Beatriz Colomina, com as suas investigações das pequenas publicações e dos programas académicos da história recente da arquitetura.

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Jul 2015

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