1. Comecemos pela autocrítica. Como meio de comunicação, estamos aqui numa posição ambivalente: acusador e arguido, juiz e réu. Em 2005, no número 37 da revista americana Perspecta, sobre o tema do “Famous”, Peter Eisenman convocava a figura de Fausto, de Goethe, para falar da “tentação dos media mefistotélicos”: “Quando jogamos aos dados com o diabo pela fama, fortuna e poder, o diabo ganha sempre. Mas a coisa que o diabo não nos pode tirar é uma história crítica ligada à autonomia da disciplina. (…) É a possibilidade dessa história que se confronta hoje com as fáceis tentações da fama.”1 Percebemos intuitivamente o que o arquiteto americano nos quer dizer. Em certa medida identificamo-nos mesmo. Existe uma exaustão do sentido, uma erosão do significado, na crescente mediatização da arquitetura contemporânea. Mas importa salientar que esta crítica dos media não é uma ideia nova, fazendo parte da genealogia da disciplina ao longo da modernidade. A verdade é que a arquitetura está cheia de célebres Dr. Fausto. Adolf Loos, Le Corbusier, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright, Charles e Ray Eames, Aldo Rossi, Robert Venturi e Denise Scott Brown, Rem Koolhaas e, claro, Peter Eisenman, para nomear apenas alguns dos mais destacados. A relação dos arquitetos com os media sempre foi ambígua para não dizer contraditória. A exposição mediática é fundamental à sua atividade, mas o discurso tem que se virar contra ela. Se dúvidas houvesse, bastaria uma leitura do ensaio “Vers une Architecture Médiátique” de Beatriz Colomina sobre Le Corbusier, com a sua abertura em forma de inventário: “79 livros, catálogos e panfletos + 511 artigos + 55 números de revista editados + incontáveis fotografias + 29 anúncios + 13 filmes + 16 filmes amadores + 20 programas de rádio + 25 programas de televisão + 1 arquivo”.2 A dimensão da lista dispensa comentários. E a sua transposição para a prática da maioria dos arquitetos do star-system atual é quase direta. Admite-se portanto que essa diferenciação absoluta entre o “histórico” e o “mediático”, entre a “autonomia” e a “fama”, será bastante mais problemática do que à primeira vista pode parecer. No entanto, a demonização disciplinar dos media pelos arquitetos e pela crítica é hoje um fenómeno generalizado, com investidas dos mais diversos quadrantes. Sabemos que a exponenciação dos processos mediáticos na nossa sociedade de consumo e comunicação generalizada não pode ser facilmente apreendida. Se os seus agentes são diversos e plurifacetados, as suas ligações são múltiplas e complexas. Não existe tema na arquitetura contemporânea que manifeste os primeiros e revele as segundas tão violentamente quanto o debate do ícone.
(…)