arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Mobilidades Expandidas

1. "A «revolução industrial» não existiu, apenas a «revolução dromocrática»; não existe democracia, apenas dromocracia; não existe estratégia, apenas dromologia”, afirmava Paul Virilio em 1977.1 Com o ensaio Speed and Politics, o pensador francês dava início os seus estudos da “dromologia”, a dita “ciência da velocidade”, que o levaria dos processos de aceleração mecânica da industrialização até ao limiar da velocidade da luz na sociedade de comunicação generalizada. Ao centrar-se na velocidade, imaterial e abstrata, como força estruturante da sociedade, Virilio alterava radicalmente a lógica de compreensão do mundo. Serve isto de preâmbulo à questão da mobilidade urbana que tem estado na ordem do dia. Da pedonalização dos centros históricos à promoção dos transportes públicos, da mecanização das circulações à acessibilidade das redes virtuais, das vias cicláveis aos automóveis teleguiados, a vida da cidade contemporânea encontra na mobilidade um dos seus desafios mais prementes. Se o fenómeno metropolitano não deixou de se expandir desde os alvores da modernidade, a questão da mobilidade foi-se tornando um problema de maiores proporções. Perante o horizonte de crescimento vertiginoso da população urbana no planeta, com a consequente explosão em tamanho e densidade das áreas metropolitanas, as questões da mobilidade e da acessibilidade emergem hoje como essenciais. De facto, a intensificação da circulação de pessoas e bens pelas estruturas urbanas e infraestruturas territoriais tem-se deparado com fenómenos de dispersão, fragmentação e congestionamento. Dir-se-ia que os arquitetos e urbanistas têm que assumir um papel na resolução dos problemas de organização e distribuição dos grandes aglomerados urbanos. Desde logo, grande parte da complexidade do problema reside precisamente na difícil delimitação e circunscrição do território de análise. O urbanismo, a sociologia, a geografia, as engenharias, principalmente a viária e de tráfego, a ecologia e sustentabilidade participam nesta problemática central ao funcionamento da cidade contemporânea. O sociólogo John Urry, diretor do Centre for Mobilities Research, define esse novo paradigma emergente como a “mobility turn”, uma “viragem pós-disciplinar” que “está a alastrar nas e através das ciências sociais, mobilizando análises que têm sido historicamente estáticas, fixas e relacionadas com «estruturas sociais» predominantemente a-espaciais”. Acrescenta que “a viragem da mobilidade relaciona a análise de diferentes formas de viagem, transporte e comunicação com os múltiplos modos como a vida económica e social é realizada e organizada através do tempo atravessando vários espaços.”2 Esta espacialização das ciências sociais e humanas parece então apontar uma potencial aproximação aos campos da arquitetura e do urbanismo. A arquitetura pode ser esse lugar atravessado pelas mais diversas áreas do conhecimento e por múltiplos campos disciplinares. Porém, uma questão de carácter estritamente disciplinar emerge quando abordamos o tema da mobilidade. Os arquitetos materializam obras que são, por natureza, formas de estabilização e formalização do movimento, controlando a deslocação corporal e a orientação dos fluxos humanos. Neste sentido, em tempos de intensificação e transformação da vida urbana, desde os fluxos migratórios laborais e turísticos aos processos de segregação e gentrificação social, a permanência física da arquitetura parece estar destinada, cada vez mais, a colidir com a dinâmica real e virtual das atividades humanas tanto individuais como coletivas. Quando as sociedades se reconfiguram globalmente, quando as cidades mudam em frente aos nossos olhos, não será a questão da mobilidade urbana uma das chaves para uma efetiva melhoria da qualidade de vida nas cidades?  (…)

Jan 2015

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