arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Portugal Internacional

1.No final do ano passado, a revista Camões lançava um número sobre a internacionalização da arquitetura portuguesa. Os editores convidados,Helena Barranha, Jorge Figueira e Manuel Graça Dias, intitularam-no significativamente "da identidade da arquitetura portuguesa". Este gesto intencional de aproximar a questão da internacionalização ao tema da identidade é aqui determinante. Diríamos mesmo que está precisamente neste vínculo não só os maiores dilemas como os grandes desafios da internacionalização da arquitetura portuguesa. Como referem os editores, "entre a divulgação em circuitos culturais especializados (como publicações e exposições internacionais) e o entendimento da arquitetura portuguesa como «produto» ou «marca» exportável em tempo de crise, procurou-se dar visibilidade às expectativas e contradições que surgem entre a obra realizada e a sua imagem ou, dito de outro modo, entre a realidade e a ficção nostálgica de uma «arquitetura portuguesa no mundo»."1 Entre os campos da cultura e do mercado, expõe-se o conflito estrutural entre o mundo disciplinar e a realidade profissional. Se esta dicotomia não é nova em Portugal, o ímpeto atual da internacionalização leva ao extremo as ambiguidades aí presentes. No limite, o desafio lá fora expõe os dilemas cá dentro. A verdade é que, com a crise dos últimos anos, esta questão adquiriu novos contornos. Como derradeira saída para uma economia estagnada, a internacionalização tornou-se o mantra do discurso político, com reflexos relevantes no campo da arquitetura. Não por acaso a Secretaria de Estado da Cultura anunciou 2013 como o Ano da Arquitetura Portuguesa, do qual o número da revista Camões será um reflexo. De facto, a arquitetura portuguesa emerge como uma potencial área de afirmação internacional a reboque dos dois prémios Pritzker e de uma qualidade internacionalmente reconhecida. Os prestigiantes prémios, exposições, conferências e monografias internacionais confirmam-no, demonstrando a presença da arquitetura portuguesa no mundo. No entanto, essa condição privilegiada não se tem refletido numa efetiva penetração da arquitetura portuguesa nos mercados internacionais. O seu impacto material no exterior resume-se a uma mão cheia de obras de referência de inegável relevância. A internacionalização da arquitetura portuguesa tem aí o seu nó górdio, lançada que está entre a construção de uma identidade cultural para dentro e a exigência de expansão profissional para fora. É esta ambivalência entre a vertente cultural e empresarial que é, antes de tudo, exposta pela internacionalização da arquitetura portuguesa.

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Out 2014

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