arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Itinerâncias

por: Luís Santiago Baptista e Paula Melâneo

Homeland - Representação portuguesa Bienal de Veneza 2014

Entrevista a Pedro Campos Costa

arqa: A Bienal de Veneza de 2014 apresenta-se como um acontecimento fundamental no âmbito dos grandes eventos internacionais da arquitetura. Não só a Bienal de Veneza é o mais importante evento disciplinar do mundo, como este ano teve como curador o arquiteto Rem Koolhaas, uma das principais figuras da cultura arquitetónica contemporânea, que avançou com uma reformulação da estrutura da bienal. A afirmação polémica de Koolhaas de que esta é uma bienal "acerca de arquitetura, não sobre arquitetos" manifesta essa intenção polémica de mudança de um estado de coisas. Qual é a sua apreciação das mudanças operadas no evento e no programa da Bienal de Veneza deste ano? 

PCC: Não é só uma afirmação polémica, toda a exposição é criada para a polémica, antes de ser realizada já era polémica. É uma tática que permite que a comunidade interessada possa mais livremente debater, construir ou destruir sobre o proposto e posicionar-se. Isto funciona melhor do que em curadorias mais defensivas, onde dificilmente se consegue um debate alargado. É curiosamente uma atitude muito jornalística. Acho muito evidente que, desde a Bienal de 2008 do Aaron Betsky, os autores conquistaram o oxigénio da atmosfera arquitetónica (não terá sido só nas bienais), contra uma lógica natural das bienais ou mesmo contrariando a essência dos temas propostos pelo curador geral. De facto, existe uma máquina de promoção de autores, que secundariza as obras e o projeto passa a ser uma ferramenta de promoção pessoal. Deixando de ser o instrumento essencial, a obra passa a ser uma especulação em si mesmo. Betsky foi hábil, com as enormes maquetes e a forma expositiva aproximou-se muito da Bienal de Arte., Goste-se ou não, foi um marco de que os curadores seguintes, se tentaram distanciar, de uma forma ou de outra, embora nunca o tenham conseguido, porque tanto os países como as exposições por si curadas resvalavam sempre para esse magma. É uma prisão mediática e disciplinar onde se perdeu a relação horizontal, o sentido público, ou mesmo a relação política, com a importância de uma construção ideológica, provocando num sentido mais estrito e de enquadramento da profissão, um afastamento dos seus próprios pares. Se pensarmos neste contexto, a polémica é mais do que necessária e tem uma razão de ser. É importante voltar a focar, em vez de explodir. A exposição "Elements of Architecture" acaba por ser muito coerente e alinhada com esta ideia. A sua proposta de se olhar para o léxico dos arquitetos, para os elementos com que os arquitetos trabalham, em vez dos seus autores, é provocativa mas também muito fácil de criticar - os elementos sozinhos não fazem arquitetura, e a forma como são apresentados pulveriza a ideia da necessidade de arquitetos (tal como eles existem ou existiram), para além de não estar representado o elemento mais complexo (acho que propositadamente) que eventualmente daria sentido a tudo aquilo - a terra, o território, o suporte. É, aliás, este elemento que nos transforma em arquitetos. Mas, para mim, o essencial da polémica não é a forma como está feita a exposição, que me parece menos importante, mas a forma como estamos enfiados neste processo de construção totalmente demente. Os construtores e a indústria controlam totalmente o processo, os arquitetos são puxados para a lateral e entre regulamentos, responsabilidades, obrigatoriedades, e impossibilidades teóricas de budget, a construção aparece como algo fora da profissão. Os edifícios estão a derreter, a plastificar, e estas ferramentas estão dominadas pela força da indústria de construção. Existem obviamente zonas de resistência interessantes, em África, no Chile, na Croácia ou mesmo em Portugal, mas o mainstream, é uma máquina de trituração, um catálogo de materiais que os arquitetos compõem em harmonias mais ou menos formais. Uma fatalidade que é mais radical quando saímos da Europa, na América do Norte, no Brasil ou na Ásia. Colocar a discussão nos elementos construtivos, é na minha opinião essencial no contexto global. Mas considero que nesta Bienal são as representações nacionais que dão o pano de fundo, invertendo o que era habitual e dando provavelmente respostas muito claras e interessantes sobre a modernidade e a sua relação politica, cultural com cada um dos países. O mérito é claramente do curador geral, não só pelo tema mas pela inovação de fazer reuniões com os países e de conseguir que as representações nacionais tivessem coerência. Foi estoico. Efetivamente, para além da polémica que é essencial, a Bienal, conseguiu uma mudança de estrutura dentro de si mesma, e a sua pequena equipa está de parabéns. Foi uma mudança considerável- passa de 3 para 6 meses, tem reuniões com os países, uma bienal de música e teatro, juntas com a de arquitetura nas cordoarias, e vários eventos ao longo dos 6 meses. No final será feita a análise pública e interna da equipa da Bienal, mas o arquiteto Rem Koolhaas é naturalmente um agitador, a única estrela da arquitetura mundial com essa capacidade. Não me parece que seja possível manter ou repetir as mudanças.

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Jul 2014

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