arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Design

por: Bárbara Coutinho

Andrea Branzi

Lugares de Quietude

Quem de nós nunca viveu, como uma revelação, experiências espaciais que nos recolheram a um estado de silêncio, a uma quietude que não dá lugar a qualquer palavra e som, a um momento de pausa, evasão e introspecção? Mas como se traduz espacialmente essa sensação de silêncio? Podemos afirmar pode materializar-se numa depuração formal e simplicidade geométrica, sem distracções ou apontamentos supérfluos, mas também através de um branco apaziguador ou de uma luz que traz a sua sombra enquanto convida à meditação. Andrea Branzi (Florença, 1938), arquitecto, designer e teórico, co-fundador da Domus Academy e actualmente professor do Politécnico de Milão, tem vindo a desenhar vários lugares de quietude, momentos em que o tempo é suspenso, como por exemplo Piccolo Albero (1991), Vertical Home (1994) e Portali (2007).

Em todas estas propostas, reinterpreta as noções de objecto, espaço e lugar para explorar um diferente entendimento da arquitectura e design. Esta reflexão vem sendo desenvolvida desde os tempos do colectivo radical Archizoom Associati (1966-1974), quando debatia o lugar do design no sistema capitalista, e prossegue quando funda o Studio Alchimia (1977) e se torna membro do Grupo Memphis (1981), movimento que reconsidera o carácter efémero dos objectos e faz a apologia da ironia, da irreverência e da crítica.  Piccolo Albero é uma estante construída a partir do abraço de vários opostos, do natural e artificial, do saber ancestral e da tecnologia industrial e de dois tempos diferentes, sendo exemplar da sensibilidade e poética de Branzi. Com um grande purismo estético, uma moldura vertical em metal lacado a cor de alumínio delimita um lugar singular habitado por um tronco de cujos ramos nascem (ou se justapõem) prateleiras em metal. A beleza vive da qualidade dos pormenores e da harmonia entre metal rígido, brilhante e rigorosamente geométrico e o tronco (im)perfeito e orgânico.

Mais do que responder a uma determinada função prática, esta pequena árvore remete para uma paisagem de afectos e memórias, talvez mesmo simbólica, para um lugar de evasão e adoração perante o qual permanecemos em silêncio. Estamos perante um objecto (ou um lugar) com um valor escultórico muito particular. Para Branzi, o mais importante é revelar a complementaridade e a poesia existente entre os elementos naturais e as matérias tecnológicas, sabendo que a natureza não é um elemento passivo com uma mera função decorativa. É trabalhada pela sua energia transmutável e, como tal, o tronco ou, em outros casos, as flores, folhas e ramos, são objectos de uma transmutação de forma a criar estruturas híbridas. Recordemos a este propósito a série Animali Domestici (1985-86), estranhas criaturas-objectos que Branzi faz habitar no nosso espaço privado, defendendo um novo relacionamento entre o homem e o meio ambiente.

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Fev 2009

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