

1. "As imagens em movimento são as ruínas da modernidade",1 escreveu Giuliana Bruno. Esta é uma afirmação enigmática que abre pistas para percebermos a presença da ruína no imaginário contemporâneo. O nosso quotidiano está povoado de ruínas românticas ou modernas, históricas ou industriais, verdadeiras ou falsas, reais ou representadas. Num momento em que as imagens de ruínas circulam com uma intensidade crescente nos mais diversos suportes físicos e virtuais, importa interrogar o seu fundamento e impacto. De que forma estamos implicados nesta vaga do que Álvaro Domingues denomina de "ruinofilia"? Até que ponto somos atingidos pelo fenómeno mediático do ruin porn? A recentíssima exposição Ruin Lust no Museu Victoria & Albert, cujo titulo o curador Brian Dillon recuperou de um texto de 1953 de Rose Macaulay, que lidava com o cenário de destruição das cidades europeias da II Guerra Mundial, revela a perplexidade no tratamento do tema: "As ruínas ainda estão de pé; mas por que se manifestam? Quanto mais pensamos acerca da destruição e decadência, quanto mais de perto olhamos para esta ou aquela massa em desagregação de pedra, betão ou metal, quanto mais exploramos a própria ideia de ruína em si mesma, menos parece esta categoria conseguir suster-se como um todo."2 Desde os alvores da modernidade, a ruína tornou-se um lugar de sublimação das tensões do processo histórico, na sua negociação problemática com os horizontes unificados do passado, presente e futuro. A melancolia de um presente onde tudo se joga e a nostalgia de um passado perdido para sempre expressa-se nas ruínas, lugar onde a fratura histórica se resolve sob a forma de experiência estética. A sensibilidade romântica é por isso o seu território privilegiado. Porém, depois dos sonhos de emancipação da modernidade, com o colapso do futuro e a dispersão do passado, o estatuto da ruína altera-se subterraneamente. Se a continuidade histórica é estilhaçada e quebrada, a ruína torna-se presença assombrada num presente fechado, sem profundidade temporal. O fascínio contemporâneo pela ruína manifesta-se assim num fundo de negatividade, reflexo da condição existencial contemporânea. Não se consegue circunscrever à estética romântica, nem se conter nos sentimentos de melancolia e nostalgia. Algo de mais profundo e indizível intensifica a nossa relação com as ruínas, expandido a sua experiência para territórios mais indeterminados e sombrios. Um campo de assombro e desassossego, que Jacques Derrida convocaria significativamente a partir da arte do autorretrato: "A ruína não está à nossa frente; não é um espetáculo, nem um objeto de amor. É a própria experiência. (...) Não é precisamente um tema, porque arruína o tema, a posição, a apresentação ou representação de toda e qualquer coisa."3 Na sua reversibilidade, a ruína é aqui um verbo, não um substantivo.
(…)Abr 2014

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