arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Objetos Indefinidos

A interrogação da condição objetual na arquitetura contemporânea

1. Em 1988, no catálogo da exposição Deconstructivist Architecture no MoMA, Mark Wigley afirmava: "O trabalho crítico só pode hoje ser feito no domínio do edifício: para se envolverem com o discurso, os arquitetos têm que se envolver com a construção; o objeto torna-se o lugar de toda a investigação teórica. (...) Com estes projetos, toda a teoria está colocada no objeto. As proposições tomam agora a forma de objetos em vez de abstrações verbais. O que conta é a condição do objeto, não a teoria abstrata. De facto, a força do objeto torna irrelevante a teoria que o produziu. Consequentemente, estes projetos podem ser considerados fora do seu habitual contexto teórico. Podem ser analisados em termos formais estritos porque a condição de cada objeto carrega toda a sua força ideológica."1 Num momento de complexidade máxima do discurso teórico e no próprio epicentro do fenómeno do desconstrutivismo, esta afirmação de Wigley revelava-se amplamente enigmática. Enigmática quer no seu distanciamento em relação ao discurso teórico, aquele que tinha sustentado a emergência do próprio movimento, quer na sua focalização radical nas qualidades formais e estéticas do objeto. Apesar do seu ensaio se circunscrever a uma interpretação do trabalho dos arquitetos presentes na exposição e portanto no âmbito da denominada arquitetura desconstrutivista, acreditamos que o seu alcance disciplinar extravasa esse âmbito particular. Na verdade, a afirmação de Wigley pode funcionar como dispositivo de leitura da história da arquitetura do último quartel do século XX. O ocaso disciplinar da questão urbana, no início da década de setenta, pode ser entendido como o outro lado do interesse crescente pelo objeto arquitetónico. O fim das utopias e a rarefação teórica da problemática urbana assinalam uma reorientação estrutural da disciplina para as questões semiológicas da linguagem e fenomenológicas do contexto. Em suma, uma mudança fundamental do foco disciplinar da cidade para o objeto. A análise das diversas antologias de teoria de arquitetura, editadas por Kate Nesbitt, K. Michael Hays e Charles Jencks, cobrindo um período que vai do final dos anos 60 até ao final do milénio, manifesta-o claramente. Por outro lado, o fenómeno do pós-modernismo assinalaria esse triunfo da dimensão objetual da arquitetura, paradoxalmente no preciso momento de maior expansão e transformação dos territórios metropolitanos. Com o problema urbano remetido essencialmente para as áreas da sociologia, antropologia e geografia, a objetualidade tornava-se o campo privilegiado de investigação disciplinar da arquitetura.

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Fev 2014

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