arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Editorial

por: Luís Santiago Baptista

Lugares Sagrados

As tensões entre a manifestação autoral e a experiência de comunidade

1. O sagrado tem sido um tema recorrente na arquitetura. Apesar disso, nas últimas décadas, a questão do sagrado tem andado afastada dos principais debates disciplinares. A isto não será estranho o processo de secularização das sociedades ditas ocidentais ao longo da modernidade. No entanto, o sagrado nunca deixou de se manifestar das mais diversas formas nas sociedades modernas e contemporâneas, sendo a arquitetura um dos intrumentos privilegiados da sua manifestação. Porém, na contemporaneidade, a questão arquitetónica do sagrado parece habitar horizontes dificilmente conciliáveis, dividida entre duas perspectivas dominantes. Por um lado, existe a consciência crescente do poder da criação arquitetónica para manifestar, pelas suas próprias qualidades, o transcendente e o indizível.1 A arquitetura, ao instaurar lugares de transcendência, contemplação e reflexão, incorpora materialmente e expressar espacialmente esse horizonte intangível do sagrado. Intensificando a experiência subjetiva do espaço, a arquitetura pode criar pontes entre o indivíduo e o universo transcendente, algo que não deixa de estar na base das diversas religiões. A abstração, minimizando a determinação linguística e simbólica da arquitetura e, deste modo, explorando as qualidades intrínsecas da experiência fenomenológica do espaço, vem responder a essa universalidade do espaço sagrado. Mas, esta tendência diríamos ecuménica da arquitetura sagrada, não deixa de evidenciar uma certa autonomia em relação aos hábitos comunitários e rotinas rituais, de natureza mais coletiva do que individual. A verdade é que os grandes edifícios religiosos das últimas décadas podem ser identificados pelos seus arquitetos, no âmbito das suas investigações projetuais, muito para além da especificidade das práticas religiosas. Por outro lado, e em sentido contrário, existe uma perspetiva centrada na experiência comunitária do ritual religioso, no qual o espaço, sendo importante, não está no fulcro das preocupações. Um sentido mais participado e anónimo emerge destes pontos de vista mais programáticos, colocando a ênfase na comunhão que se realiza no espaço e não na experiência estética do espaço em si mesmo. Neste sentido, as dimensões da permanência, como a organização do ritual, as estruturas simbólicas e as determinações do uso, adquirem uma maior preponderância, contribuindo para o estabelecer de vínculos coletivos entre os crentes constituídos em assembleia. A arquitetura sagrada parece estar assim numa encruzilhada. Tornar-se pura experiência significante do espaço, sempre ameaçada pela proximidade às lógicas massificadas da autoria e do espetáculo, ou assumir-se como estrita prática de comunhão coletiva, perante o espectro da fragmentação e rarefação dos praticantes numa sociedade secularizada. A estetização da experiência do sagrado contra o confinamento das práticas religiosas. No limite, como habitar esse espaço entre a sacralização do espaço e a ritualização das práticas?

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Jul 2013

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