arqa—Arquitectura e Arte Contemporâneas — Portuguese Contemporary Architecture and Art Magazine

Entrevista

por: Luís Santiago Baptista, Paula Melâneo

Markus Miessen

Novas Coletividades - Perspetivas Críticas

Arquiteto Studio Miessen, Docente, Diretor Winter School Middle East, Editor, Autor "The Nightmare of Participation"

arqa: Tendo em conta a sua investigação sobre a "participação", em que sentido lhe interessa especificamente o fenómeno das novas coletividades?
arqa: Perante a crise do modelo de desenvolvimento global, quais as possibilidades atuais da intervenção ativa, social e popular na cidade contemporânea?
arqa: No âmbito das mudanças nas sociedades contemporâneas, qual o papel do arquiteto na configuração do novo sentido coletivo?

MM: Pesadelo da Participação 2.0 - uma análise (com Hannes Grassegger)
Do Cairo a Berlim para Ocupar Wall Street. A participação é o novo ópio do povo. Quando todos fizerem parte de tudo, tudo ficará bem, ou assim o dita a doutrina sagrada da participação. Mas, às vezes, o melhor é exatamente o oposto.
Todos deveriam ser capazes de tomar partido! A chamada à participação é a linha vermelha da história do pensamento político do nosso tempo, ligando os protestos em Wall Street ao Cairo, às caixas de voto capturadas pelos Piratas da Alemanha. Mas a "participação" é um conceito a precisar de reparação urgente. Por vezes, tais formas de democracia, em que todos têm o direito de dizer algo na matéria, deveriam ser evitadas a todo o custo. Nem todos deveriam ser convidados a fazer parte dos processos decisórios. Propomos que se olhe para a participação da outra perspetiva: como um modelo autocrático. De facto, chegou o momento de arriscarmos em mais autocracia. Na Alemanha, pelo menos, a participação é altamente romanceada. A via do meio parece perder-se assim que alguém clama "junta-te a nós!" no Facebook. E não nos referimos a pielas massivas. Na última década, ou aproximadamente, temos experienciado um apoio quase fundamentalista da participação cívica sob a capa da "participação". Este entusiasmo é acompanhado por uma grotesca inocuidade na criação de estruturas e condições básicas para a dita participação, tanto a um nível nacional como local, por exemplo, como na Stuttgart21 ou com jornais como o Freitag (a rebentar com ideias participativas enganadoras) ou com a inundação de projetos participativos no mundo da arte, etc. É como se a participação em si tivesse ganho um valor por si só. Os discípulos desta visão sagrada da participação são o Partido Pirata da Alemanha. Até agora, parece que se estrearam na nossa gentil deutscher arabischer Frühling (Primavera Árabe Alemã), como descreve Heinrich Wefing num dos principais jornais alemães, Die Zeit. Na realidade, são radicais sem sequer saber porquê. Usam os portáteis para votar, maioritariamente através da plataforma de voto Adhocracy, que oferece a possibilidade de voto em tempo real, como no parlamento representativo. Os Piratas estipularam que a "democracia líquida" deverá substituir a democracia representativa (um compromisso meio democrático, aos olhos dos Piratas), a favor da "participação real" com poder.

Foto: projeto de nOffice (Miessen Pflugfelder Nilsson)

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Mai 2013

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